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O brilho do automobilismo brasileiro no cenário internacional: As carreiras de Augusto Farfus e Pipo Derani

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Augusto Farfus e Pipo Derani
Foto: Luis França

O automobilismo brasileiro possui uma herança de excelência que ultrapassa os circuitos de Fórmula 1. Dois dos expoentes mais influentes e bem-sucedidos das últimas décadas no cenário internacional são Augusto Farfus e Luís Felipe “Pipo” Derani.

Atuando em frentes distintas do desporto motorizado de elite, ambos demonstraram que a transição dos monolugares para as competições de turismos, Gran Turismo (GT) e protótipos de resistência (endurance) pode culminar em carreiras profissionais de enorme prestígio e longevidade. Enquanto Farfus se estabeleceu como um dos pilotos de fábrica mais duradouros e respeitados do construtor alemão BMW, Derani construiu uma reputação incontornável como especialista em protótipos na América do Norte, conquistando múltiplos títulos e as mais cobiçadas corridas clássicas de resistência do planeta.

Augusto Farfus: A trajetória de excelência no turismo e nos gran turismos

Augusto Celestino Farfus dos Santos Jr. nasceu em Curitiba, no estado do Paraná, a 3 de setembro de 1983. O piloto iniciou sua trajetória em 1990, aos seis anos de idade, competindo em provas regionais de minimotos. O sucesso nas pistas de terra valeu-lhe o campeonato estadual do Paraná e a alcunha de “Magic Motorcycle Boy”. Essa base impulsionou a sua entrada no karting em 1992, inicialmente na classe cadete e pela equipa CRG.

Entre 1993 e 1998, dominou vários campeonatos juniores no Brasil, acumulando experiência que o levou a disputar competições na Europa, onde venceu a Winter Cup italiana de 1999 e alcançou o vice-campeonato norte-americano de karting no mesmo ano.

A mudança definitiva para a Europa ocorreu em 2000 para ingressar no exigente ambiente dos monolugares. Farfus competiu no Campeonato Italiano de Fórmula Renault e na Eurocup Formula Renault 2.0 pela Cram Competition, assegurando uma vitória e a décima posição absoluta no certame transalpino.

No ano de 2001, ao serviço da RC Motorsport, o curitibano obteve a sua consagração na Eurocup Formula Renault 2.0, conquistando o título de campeão com 160 pontos. Numa exibição de grande consistência técnica, somou quatro vitórias — nas pistas de Monza, Brno, Magny-Cours e Hungaroring —, seis pódios, quatro pole positions e duas voltas mais rápidas.

Esse desempenho abriu-lhe as portas da prestigiada Euro Formula 3000 em 2002 pela Draco Junior Team, terminando o ano de estreia num sólido nono lugar. Em 2003, aos comandos do Lola T99/50 com motor Zytek. Farfus realizou uma campanha brilhante e conquistou o campeonato europeu com duas rondas de antecipação. Com apenas 20 anos de idade, acumulou cinco pole positions, oito pódios e quatro vitórias categóricas em Enna-Pergusa, Monza, Spa-Francorchamps e Jerez, além de segundos lugares no Nürburgring e em Cagliari.

Apesar do título e da reputação em ascensão, a ausência de orçamentos colossais impossibilitou a transição sustentável para a Fórmula 1, direcionando Farfus para o profissionalismo de fábrica nas corridas de turismos. Em 2004, foi contratado pela equipa oficial da Alfa Romeo (N.Technology) no European Touring Car Championship (ETCC). O brasileiro adaptou-se rapidamente à dinâmica de tração dianteira, fechando o ano em sexto com pódios em Monza, Valencia e Magny-Cours, além de uma memorável vitória na corrida de encerramento no traiçoeiro traçado urbano de Macau.

Com a transição do ETCC para o Campeonato Mundial de Carros de Turismo (WTCC) da FIA em 2005, manteve-se na Alfa Romeo, terminando a época inaugural em quarto com 65 pontos e uma vitória. Repetiu a quarta posição geral em 2006, acumulando três vitórias e seis pódios.

Em 2007, Farfus realizou a transferência mais marcante da sua carreira profissional ao assinar com a BMW Team Germany, operada pela Schnitzer Motorsport.

Ao volante do BMW 320si, disputou o título mundial até ao fim da época, terminando em terceiro lugar absoluto na classificação de pilotos. Após uma temporada de consolidação em 2008, o piloto realizou o seu ano mais prolífico no WTCC em 2009.

Numa das batalhas desportivas mais intensas da categoria, o brasileiro amealhou seis vitórias — nos circuitos de Valencia, Oschersleben, Brands Hatch, Okayama e um duplo triunfo histórico na Boavista, em Portugal —, alcançando nove pódios e fixando-se novamente na terceira posição final com 113 pontos. Despediu-se do WTCC em 2010 com um sexto lugar na geral.

O regresso oficial da BMW ao campeonato de turismos alemão DTM, em 2012, encontrou em Farfus o embaixador ideal. Ao serviço da equipa RBM, o piloto conquistou a primeira pole position de um brasileiro na história do DTM no circuito de Valencia, terminando a época em sétimo lugar absoluto e arrecadando o prémio de melhor estreante (Rookie of the Year).

A sua melhor temporada na disciplina deu-se em 2013, sagrando-se vice-campeão do DTM com o BMW M3 DTM após disputar intensamente o título com prestações consistentes. Até ao encerramento do seu ciclo no DTM em 2018, o piloto realizou 104 corridas, alcançando quatro vitórias, seis poles e treze pódios.

A partir de 2019, a BMW integrou Farfus de forma dedicada no seu programa global de Gran Turismo e corridas de resistência de longo curso, onde o brasileiro se converteu num dos maiores nomes mundiais da especialidade.

Conquistou as icónicas 24 Horas de Nürburgring na classificação geral em duas ocasiões distintas: a primeira em 2010 (com o BMW M3 GT2, dividindo os comandos com Jörg Müller, Uwe Alzen e Pedro Lamy) e a segunda em 2025 (com o Rowe Racing BMW M4 GT3 EVO, partilhando o carro com Kelvin van der Linde, Jesse Krohn e Raffaele Marciello numa espetacular corrida de recuperação iniciada na 17ª posição da grelha de partida).

A sua ligação à “Green Hell” alemã foi reforçada com a obtenção do recorde de volta do traçado completo do circuito em 2022, fixando a marca de 8:08.421 minutos. Na edição de 2026, a tentativa de alcançar a sua terceira vitória foi travada por uma falha mecânica no BMW M4 GT3 EVO #1 que obrigou ao abandono da prova.

Farfus venceu na classificação geral as 24 Horas de Dubai em 2011 e conquistou a vitória de classe na prestigiada corrida das 24 Horas de Daytona em duas edições consecutivas, em 2019 e 2020, tripulando o BMW M8 GTE na exigente classe GTLM sob a estrutura da BMW Team RLL.

No plano dos circuitos urbanos, triunfou na classificação geral da FIA GT World Cup em Macau na época de 2018 com o BMW M6 GT3 da Schnitzer Motorsport, tendo ainda subido ao pódio na mesma prova em 2023 com a Rowe Racing ao terminar no terceiro lugar. A sua versatilidade foi premiada em 2020 com o título de campeão absoluto de pilotos no Intercontinental GT Challenge (IGTC) ao lado de Nick Catsburg, garantindo vitórias de relevo nas 8 Horas de Indianápolis e nas 9 Horas de Kyalami.

No âmbito do FIA WEC, o piloto curitibano manteve-se ativo na classe GTE Pro durante a super época de 2018-2019 com a equipa de fábrica MTEK. Em 2024, na estreia da categoria LMGT3, Farfus desempenhou um papel técnico determinante na Team WRT. Ao lado de Sean Gelael e Darren Leung, garantiu a primeira vitória de sempre de um carro da BMW na era moderna do WEC ao triunfar nas 6 Horas de Imola.

Na mesma temporada, o trio assegurou o segundo lugar da classe nas exigentes 24 Horas de Le Mans. Nas épocas seguintes, incluindo 2026, Farfus permaneceu como piloto prioritário da Team WRT no WEC, combinando estas funções com o apoio à carreira dos seus filhos, com destaque para a jovem Victoria Farfus, que iniciou o seu percurso no karting internacional sob o prestigiado programa de desenvolvimento das Iron Dames.

Pipo Derani: O domínio absoluto nos Protótipos e a Fronteira dos Hipercarros

Luís Felipe “Pipo” Derani nasceu em São Paulo a 12 de outubro de 1993, dando continuidade a uma linhagem de forte ligação ao desporto automóvel, como filho do falecido piloto Walter Derani e irmão de Rafael Derani, ambos desportistas consagrados no panorama automobilístico brasileiro.

Derani iniciou a sua formação desportiva no karting em 2003, aos dez anos de idade. Demonstrou desde logo uma condução agressiva e técnica, conquistando o Campeonato Paulista Junior Menor em 2005, o vice-campeonato brasileiro de karting em 2007 e a prestigiada Copa Codasur na categoria Sudam Jr em 2008.

O salto para os monolugares europeus ocorreu em 2009, competindo no Campeonato do Norte da Europa de Fórmula Renault 2.0 (NEC) com a equipa Motopark Academy. Derani conquistou dois pódios e fixou-se no sétimo lugar do campeonato geral. Em 2010, disputou a Fórmula 3 Alemã e, a partir de 2011, ingressou no prestigiado Campeonato Britânico de Fórmula 3 com a equipa Double R Racing.

O seu amadurecimento técnico deu-se em 2012 na mesma competição, agora ao serviço da Fortec Motorsport, assegurando cinco pódios e duas vitórias em Oulton Park e Brands Hatch, terminando na oitava posição geral. No final desse ano, estreou-se no Grande Prémio de Macau de Fórmula 3 com um meritório sexto lugar.

O ano de 2013 representou o expoente máximo da sua carreira em monolugares na Europa. Disputando o Campeonato Europeu de Fórmula 3 da FIA pela Fortec, alcançou três pódios e concluiu a temporada na oitava posição. Contudo, a sua prestação mais aplaudida ocorreu no lendário Grande Prémio de Macau de Fórmula 3.

Enfrentando condições climatéricas exigentes e competindo contra as maiores promessas mundiais, Derani assegurou um terceiro lugar absoluto no Circuito da Guia, subindo ao pódio ao lado do vencedor Alex Lynn e de António Félix da Costa.

Após um breve início de campanha em 2014 na Pro Mazda norte-americana com a Team Pelfrey — campeonato de onde foi dispensado após seis corridas via redes sociais quando ocupava a sexta posição geral — o piloto brasileiro tomou a decisão estratégica de redirecionar o seu percurso para as corridas de protótipos de resistência.

A estreia nos protótipos deu-se em 2014 no European Le Mans Series (ELMS) com a Murphy Prototypes na categoria LMP2, chamando à atenção ao obter um pódio na sua corrida de estreia no circuito de Paul Ricard. Esse desempenho valeu-lhe um contrato a tempo inteiro no Campeonato Mundial de Endurance (WEC) da FIA de 2015 pela equipa G-Drive Racing, operando um Ligier JS P2-Nissan.

Dividindo os comandos com Gustavo Yacamán e Ricardo González, a equipa realizou uma campanha brilhante na categoria LMP2. Derani conquistou a vitória nas 6 Horas de Spa-Francorchamps, o segundo lugar nas 6 Horas de Silverstone e um total de sete pódios, garantindo o terceiro lugar geral no campeonato de pilotos. Estreou-se ainda nas 24 Horas de Le Mans com um excelente quarto lugar na classe LMP2.

Na temporada de 2016, transferiu-se para a Extreme Speed Motorsports (ESM), mantendo o elevado nível de competitividade com quatro pódios no WEC e fechando a tabela desportiva em quarto na classe LMP2.

Foi no panorama do automobilismo norte-americano, no campeonato IMSA WeatherTech SportsCar Championship, que Derani alcançou a consagração absoluta.

No início de 2016, competindo pela ESM com o protótipo Ligier JS P2 com motor Honda, assombrou a comunidade desportiva ao vencer as duas maiores e mais desgastantes clássicas do continente americano na mesma temporada e em ano de estreia: as 24 Horas de Daytona e as 12 Horas de Sebring.

A sua vitória em Sebring foi selada com um turno final de antologia, onde superou Dane Cameron nos minutos finais da corrida, tripulando o carro ao lado de Scott Sharp, Ed Brown e Johannes van Overbeek. Esta prestação abriu as portas da equipa oficial da Ford na classe LMGTE Pro no WEC em 2017. Tripulando o Ford GT da Chip Ganassi Team UK com Andy Priaulx e Harry Tincknell, Derani venceu na estreia nas 6 Horas de Silverstone e alcançou um excelente segundo lugar na classe nas 24 Horas de Le Mans.

No mesmo ano, somou mais uma vitória na geral da IMSA aos comandos do Nissan DPi da ESM no circuito de Road America. Em 2018, triunfou pela segunda vez nas 12 Horas de Sebring com a ESM, confirmando a sua especial apetência pela pista da Florida.

Em 2019, o piloto transferiu-se para a consagrada equipa Action Express Racing para tripular o protótipo Cadillac DPi-V.R número 31. Fazendo dupla com Felipe Nasr, a parceria impôs um ritmo fortíssimo, vencendo na geral as 12 Horas de Sebring e a prestigiada clássica Petit Le Mans, assegurando o vice-campeonato geral de pilotos.

O auge técnico sucedeu em 2021, época em que Derani e Nasr conquistaram o campeonato geral de pilotos na classe principal DPi da IMSA após amealharem quatro vitórias e oito pódios em onze corridas. Em 2023, na transição para a inovadora era híbrida da classe GTP, Derani ergueu o seu segundo título de campeão na IMSA.

Aos comandos do moderno Cadillac V-Series.R híbrido da Action Express Racing e dividindo o habitáculo com Sims e Aitken, o brasileiro venceu as 12 Horas de Sebring — a primeira vitória de sempre de um carro LMDh na prova da Florida — e arrecadou o título de pilotos.

Essa conquista cimentou o seu nome no restrito grupo de tetracampeões de Sebring (2016, 2018, 2019 e 2023). Paralelamente à resistência tradicional, Derani realizou um teste na Fórmula E em 2020 com a equipa Mahindra Racing.

Após encerrar um percurso de enorme sucesso com a Action Express Racing no fim de 2024, Derani foi oficializado como piloto principal de fábrica e responsável pelo desenvolvimento do ambicioso projeto de hipercarros da marca de luxo sul-coreana Genesis Magma Racing (Hyundai Motor Group) para o WEC na época de 2026.

Durante a época de 2025, o paulista dedicou-se exclusivamente aos extensos programas de testes do inovador protótipo GMR-001, realizando apenas uma aparição especial na classe GTD nas 24 Horas de Daytona com o Corvette Z06 GT3.R da DXDT Racing, cujo percurso acabou por ser interrompido por um incêndio na segunda metade da corrida.

No WEC de 2026, integrando a tripulação do hipercarro #17 ao lado de André Lotterer e Mathys Jaubert, Derani desempenhou um papel crucial no crescimento desportivo da estrutura sul-coreana.

Nas 6 Horas de Spa-Francorchamps, protagonizou um final de corrida taticamente notável ao defender com sucesso a oitava posição contra os ataques de equipas de fábrica já estabelecidas, garantindo os primeiros pontos mundiais da história da Genesis no desporto motorizado.

No regresso a Le Mans em 2026, embora a equipa tenha surpreendido a concorrência ao qualificar os seus dois hipercarros na fase Hyperpole (sétima e décima posição da grelha de partida), o hipercarro de Derani foi forçado a retirar-se na manhã de domingo devido a uma quebra mecânica na suspensão, impedindo a obtenção de um resultado no Top 10 que se afigurava extremamente provável.

Apesar de pertencerem a gerações ligeiramente diferentes e de terem enfrentado conjunturas económicas distintas, a carreira de Augusto Farfus e de Pipo Derani partilha um elemento fundamental de reflexão estratégica: o redirecionamento precoce das ambições de Fórmula 1 rumo à especialização técnica em programas oficiais de fábrica de construtores mundiais.

As escolhas efetuadas por ambos os pilotos demonstram uma acutilante visão de mercado. No início dos anos 2000, Farfus compreendeu que as portas das equipas de fábrica no turismo (Alfa Romeo e posteriormente BMW) ofereciam uma carreira de longo curso com estabilidade financeira e projeção global, contornando a necessidade de orçamentos pessoais exigidos nos escalões de acesso à Fórmula 1.

Mais tarde, Derani replicou este raciocínio ao abandonar de forma célere os monolugares após o pódio em Macau e a passagem atribulada pela Pro Mazda, identificando o crescimento da classe LMP2 e o advento dos construtores na categoria de hipercarros como o ambiente ideal para construir o seu legado.

No plano técnico, a análise das suas qualidades revela abordagens e virtudes complementares. Farfus refinou as suas aptidões em veículos de turismo e GT que exigem grande precisão em tração traseira, gestão de peso dinâmico elevado e resiliência em pistas historicamente complexas.

A consistência em condições de pista molhada e a perícia demonstrada em circuitos exigentes como a Nordschleife do Nürburgring e o traçado urbano de Macau converteram-no numa valiosa referência técnica para o departamento de engenharia da BMW M Motorsport no desenvolvimento de novos modelos.

Em contrapartida, Pipo Derani especializou-se em protótipos caracterizados por uma elevada força descendente (downforce) e sistemas híbridos modernos. A sua pilotagem agressiva e ao mesmo tempo calculista destaca-se na gestão minuciosa do tráfego multiclasse, um dos aspetos mais complexos do desporto motorizado de resistência.

Legados

O legado de Augusto Farfus e de Pipo Derani transcende as estatísticas individuais de campeonatos conquistados e troféus acumulados. Ambos os pilotos atuaram como verdadeiros pioneiros na desmistificação do percurso de carreira de um piloto profissional de elite, demonstrando que as disciplinas de endurance, turismo e GT oferecem plataformas de prestígio global incomparáveis e carreiras financeiramente viáveis. Através das suas longas e frutíferas parcerias com marcas emblemáticas como a BMW, Alfa Romeo, Ford, Cadillac e Genesis, Farfus e Derani elevaram de forma expressiva o pavilhão do automobilismo brasileiro no cenário internacional. 

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