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Automobilismo

Antonelli, a história além do “cavallino”

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Quando penso no que a F1 viveu ontem, me vem a cabeça uma sensação de mágoa vencida ou um paradigma quebrado.

Não, Antonelli não se portou ao ponto disso. Mas talvez ele seja o ponto de virada, até mesmo, do esporte italiano como um todo em suas várias mãos.

Em 1983, um ainda jovem Riccardo Patrese buscava seu lugar ao sol. A carreira deste paduano já tinha sido mais que sacudida e queimada com profunda injustiça depois dos trágicos acontecimentos que levaram a morte de Ronnie Peterson, cinco anos antes.

Descreditado e apontado, injustamente, como culpado pela morte do sueco (James Hunt que o diga), foi encontrar novos ares além da mediana Arrows um ano antes, em 1982, ladeando Nelson Piquet na Brabham e conquistando, quase que por acaso, a primeira vitória da carreira, naquele confuso GP de Mônaco.

Aquela plateia em Imola talvez não esperasse Patrese a frente. Os olhares daquele mar vermelho alucinado nas arquibancadas estava voltado para o Ferrari #27, na mão de um francês. A vitória de Patrick Tambay naquele dia seria uma forma de abrir o nó da garganta ainda apertado depois da morte de Gilles Villeneuve, no ano anterior.

Era um dia dominante do segundo carro da Brabham, até Patrese achar a barreira de pneus aos pés da Acqua Minerale, o que foi a explosão maior de uma maré rossa diante de um francês vivendo seu momento de glória.

O acidente de Patrese nas últimas voltas de Imola, em 1983. Decepção tornada mágoa com italianos explodindo na vitória de um ferrarista francês (Reprodução)

Foi um travo de mágoa que ficou preso em Riccardo por anos. Como compreender, na ótica do veterano paduano que os próprios compatriotas destilavam vaias e urras contra ele e todas as glórias à um francês que, por conveniência contratual, era o contratado da casa de Maranello naquele ano?

Talvez nem mesmo a vitória de Riccardino na mesma Imola e já pela Williams, em 1990, foi um alivio para as incompreensões que tinha e a decepção com a própria torcida que teve que carregar por ano. A Ferrari era maior do que qualquer italiano que se atrevesse a igualar seus feitos com Alberto Ascari, que conquistou sua glória em 1953 e, acredite, pilotando um dos carros do comendador.

Dai a indagação que qualquer pensador sobre a categoria poderia fazer, ao menos até ontem: sinônimo da gloria italiana no automobilismo seria apenas a Ferrari? Aquela que faria qualquer bota de qualquer parte do mundo se sentir um italiano, diga-se.

E, o suprassumo seria um italiano ser o campeão do mundo vestindo vermelho tal como Ascari? Algo que só aconteceria em mil anos, ou dentro da lógica do “difícil, mas impossível”.

Ao longo dos anos, assistimos um desfile de botas italianos tentando a sorte, chegando badalados mas não passando de uma face mediana na pista, somando parcas vitórias ou mesmo pódios furtuitos, sem contar resultados modestos a pífios.

O final dos anos 1980 foi um terreno fértil para o surgimento de vários pilotos italianos com algum talento reservado, mas não passando de uma leiga impressão de especialistas da matéria.

Para se ter uma ideia, em 1989 foram 14 pilotos da bota, entre fixos e substitutos, veteranos e novatos. E deles, apenas Alessandro Nannini levou sua Benetton a vitória naquele ano, e num tremendo “sem querer”, justo na polêmica etapa do Japão.

Fora Sandro, ouvimos falar de Caffi, Modena, Martini, até mesmo o inconstante De Cesaris e o cômico Capelli, sucedidos com o tempo por gente jovem como Fisichella e Trulli, mas que não passaram de nomes medianos, meras presenças do país no grid que não fossem vestindo vermelho.

Alberto Ascari, o último piloto italiano campeão, em 1953 (Reprodução)

Agora, vive-se um fato novo e, talvez, inimaginável há alguns anos: a Itália, enfim, aplaude um campeão do mundo depois de sete décadas de jejum. Ele não veste vermelho, mas é capaz de fazer até o mais fervoroso tifosi se curvar a seu talento prodigioso.

Ouvimos falar de Andrea Kimi Antonelli há tempos, especialmente desde a base. Podemos ter caído no mesmo pensamento de “um italiano mais” quando o mesmo escapou na parabólica de Monza em sua primeira incursão com um F1, aquele derretimento de expectativa que, mal sabíamos, não se concretizou.

Ser campeão da forma como foi, derrubando um hipotético status quo britânico dentro e fora de casa e assimilando cada lição aprendida com os erros, é algo verdadeiramente especial. Talvez a virada de regulamento tenha criado esta brecha para a glória, combinado a um momento de desenvolvimento da Red Bull com os motores Ford, mas negar a história seria criminoso demais para com a sagacidade do jovem italiano.

Antonelli quebrou firmemente uma escrita clássica de ver a Itália na F1 sendo muito mais a Ferrari e menos os pilotos que vemos ostentando a tricolore. As vitórias do garoto fizeram, inclusive em Monza, os italianos que vestiam vermelho se render ao prodígio de um piloto vestido de preto e defendendo cores forjadas na história alemã em técnica e categoria na pista.

A juventude é o caminho do esporte italiano, e talvez o tento de Antonelli seja o exemplo, na MotoGP e seus nomes que sempre se renovam mesmo fora de marcas como Ducatti ou Aprillia ou mesmo no futebol, onde a draga que se tornou a azurra a faz ausente de várias Copas e ainda se bate para criar uma nova geração.

E a juventude deste Antonelli também é capaz de quebrar a lógica na pista: a Itália não precisa, apenas, da Ferrari para ser Itália na pista, contanto que um dos seus saiba acelerar e vencer, como este garoto de 20 anos conquistando o mundo e fazendo Ascari dormir em paz depois de sete décadas.

O que o futuro reserva para Kimi? Não sabemos, e não dizemos que será tão ou mais fácil que foi para ele neste 2026.

Mas a história e a quebra do paradigma estão escritos. A Itália voltou a ser grande no automobilismo, não precisou de “cavallino rampante” para isto.

Forza, Andrea! Com as palmas dos tifosi.

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