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24h de Le Mans

A primeira a bater de frente com a gigante de Ingolstadt: a história de Audi vs Peugeot

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Foto: Alessandro Prada

O asfalto sagrado de Le Mans foi e ainda é palco de diversas rivalidades históricas, como Ford vs Ferrari nos anos 60, Matra vs Porsche nos anos 70, Porsche vs todo mundo nos anos 80, LMP vs GT1 nos anos 90, a lista é grande.

Nos anos 2000, parecia que ninguém conseguiria rivalizar com a Audi e seus R8 e R10 TDI, a marca alemã parecia imbatível, mesmo que a Bentley tenha vencido as 24 Horas de Le Mans em 2003, o carro era basicamente um Audi R8C modificado, e a marca inglesa fazia parte do Grupo Volkswagen na época, ou seja, todas as 24 Horas de Le Mans disputadas no século 21 foram vencidas pelo Grupo VW.

Porém tudo mudou em 2007, com a chegada da Peugeot e seu 908 HDi FAP.

2007/08: A chegada do Leão e o Adeus do R10 TDI

No final de 2006, a Peugeot anunciou seu novo protótipo para competir em Le Mans: o Peugeot 908 HDi FAP. O modelo, assim como o Audi R10 TDI, contaria com um motor V12 5.5 Litros movido à diesel com injeção direta de alta pressão (HDi) e filtro de partículas (FAP) em seu sistema, tecnologias que tinham como objetivo melhorar a eficiência energética do motor, assim como sua economia de combustível e a redução da emissão de gases poluentes.

Foto: Wouter Melissen

O modelo da marca francesa já faria sua estreia na temporada de 2007 da Le Mans Series, onde o modelo venceu o título já na sua temporada de estreia, porém, o primeiro embate entre o 908 e o R10 TDI seria nas 24 Horas de Le Mans de 2007, onde, após uma corrida perfeita do R10 TDI #1 da Audi Sport North America, a marca de Ingolstadt saiu vencedora, terminando 10 voltas a frente do Peugeot 908 #8 da Team Peugeot Total.

Foto: F. Kräling Motorsport-Bild GmbH/Audi Media Center

2008 foi mais do mesmo, com a Audi vencendo novamente com seu R10 TDI #2 da Audi Sport North America, porém com o Peugeot 908 #7 operado pela Team Peugeot Total terminando na mesma volta que o Audi vencedor.

Foto: Audi AG

Além disso, a Audi dominou as temporadas de 2008 da Le Mans Series e da American Le Mans Series.

Essa seria a última vitória em Le Mans do Audi R10 TDI, já que, em 2009, a marca alemã aposentaria o vitorioso protótipo para introduzir um novo modelo: o R15 TDI.

Foto: Audi Communications Motorsport

O novo R15 TDI, assim como seu predecessor, utilizaria um motor movido a diesel, porém não seria um V12, mas sim um V10. Além disso, a marca alemã decidiu utilizar um pacote aerodinâmico diferente, com sidepods com várias aberturas e um nariz mais alto e mais largo que antes. O R15 TDI também teria um pacote bem mais compacto e modular, fazendo com que reparos pudessem ser feitos em menos tempo.

Foto: Audi Communications Motorsport

Assim era o cenário para a temporada de 2009: um carro novo de uma montadora vitoriosa em tudo que competiu desde 2000 e um carro um pouco mais antigo de uma montadora que não estava em Le Mans desde o final de era do Group C, porém trabalhado extensivamente.

2009: O leão ruge mais alto

A temporada de endurance de 2009 teria seu início nas 12 Horas de Sebring já com um grande azarão desbancando tanto a Audi quanto a Peugeot. Scott Dixon fez a pole para as 12 Horas de Sebring com seu Acura ARX-02 operado pela De Ferran Motorsports, com um tempo 2 décimos mais rápido que o R15 TDI #2 de Tom Kristensen. A Peugeot seguia logo atrás em 3° e 5° com seus 908 HDi FAP.

Foto: Dan Boyd/Honda Newsroom

Na corrida, O Peugeot #8 sofreu um revés logo antes da corrida começar, por ter problemas na direção hidráulica, um dos 908 teve de começar a corrida do pit lane.

O duelo não ficou só limitado à pista, uma batalha ferrenha nos pits mostrava um cenário favorável para a marca de Sochaux, por terem um desgaste de pneus bem melhor, eles não precisavam trocar os pneus em todo pit stop, enquanto os R15 precisavam trocar seus Michelin em todo pit stop.

Foto: Audi Communications Motorsport

Nessa batalha ferrenha, os Peugeot sofreram com alguns problemas, com o Peugeot #8 rodando enquanto estava na liderança e o Peugeot #7 tendo problemas com o ar condicionado do carro.

Na parte final das 12 horas, o carro #8 sofreu um furo de pneu, levando a um pit stop inesperado e comprometendo a estratégia, necessitando de um pit stop a mais que o Audi #2 para completar a corrida.

Ao final da corrida, a vitória ficou com o Audi R15 TDI #2 pilotado por Allan McNish, Rinaldo Capello, e Tom Kristensen, 22 segundos a frente do Peugeot #8. Essa corrida ainda detém o recorde de corrida mais rápida da história das 12 Horas de Sebring, com uma velocidade média de 190 km/h. Também detém o recorde de maior distância percorrida pelo vencedor, com o Audi #2 percorrendo 2080 Km, 5% da circunferência terrestre em apenas 12 horas.

Foto: Audi Communications Motorsport

O próximo embate entre as duas marcas aconteceria em junho, nas 24 Horas de Le Mans.

Com uma mudança de regulamento, onde os carros movidos à diesel teriam de ter um lastro maior para melhorar a competitividade num geral, a maior prejudicada foi a Audi.

Com a configuração mais compacta, não teria como colocar o lastro de uma forma que o peso do carro ficasse balanceado igualmente, além da falta de tempo hábil para testes fez com que a marca de Ingolstadt chegasse sem um setup ideal para Le Mans.

As mudanças foram bem efetivas, com o pole position Peugeot 908 HDi FAP #8 fosse 4 segundos mais lento que em 2008, mas quase um segundo mais rápido que o Audi R15 TDI #1.

Durante a corrida, a Audi demonstrava que não conseguia manter o mesmo ritmo que os Peugeot durante o stint. Porém a corrida não foi tranquila assim para os Peugeot, com um incidente no pit lane envolvendo os carros #7 da equipe de fábrica e #17 da Pescarolo (cliente) levou o carro #7 a ter danos significativos que basicamente o tirou da corrida, terminando 13 voltas atrás do vencedor.

Ao longo da corrida, os Audi sofreram muito com a falta de ritmo e acidentes, com o Audi #2 abandonando a corrida antes de se completarem 12 horas de prova. Pouco antes do sol se pôr em Le Mans, a Audi viu a Peugeot dar uma volta em seus carros.

Ao final das 24 horas, o Peugeot 908 HDi FAP #9 pilotado por David Brabham, Marc Gene, e Alexander Wurz liderou, em formação, seus companheiros de equipe para a bandeirada final, dando à marca francesa sua terceira vitória em Le Mans, a primeira desde 1993.

Foto: Paul Damiens/Photos Peugeot

No final da temporada, a Peugeot também venceu Petit Le Mans, marcando assim, a quebra da hegemonia da Audi.

2010: O desastre francês

Ao ver sua dominância ser quebrada, a Audi resolveu trazer mudanças para seu R15 TDI, introduzindo assim o R15 TDI Plus, com algumas mudanças, principalmente no pacote aerodinâmico, introduzindo os “tusks”, que seriam utilizados futuramente pela Lotus na Fórmula 1 em 2014.

Foto: Ferdi Kräling Motorsport/Bild GmbH

O ano começou com mais uma vitória da Peugeot nas 12h de Sebring, porém todos os olhos novamente estariam focados em Le Mans.

Para 2010, mais mudanças foram feitas no regulamento, com os LMP1 movidos à diesel tendo um lastro mínimo aumentado de 30 kg para 930 kg.

Na classificação, a Peugeot varreu as 4 primeiras posições com seus 3 carros de fábrica e com o carro #4 da Oreca Matmut, com as 3 Audi logo atrás.

A corrida parecia ser uma repetição de 2009, com os Peugeot dominando, porém os Audi não estavam tão atrás assim. Porém, na terceira hora da corrida, o Peugeot #3 abandonou a corrida após uma falha na suspensão.

Após isso, a corrida continuou de forma tranquila para os Peugeot, ainda mais que o Audi #7 sofreu um acidente, perdendo 3 voltas em relação ao líder. O Audi #9 também sofreu um susto enorme, após sofrer danos passando por cima das zebras.

Pouco antes da metade da corrida, desastre para o Peugeot #1, com uma falha no alternador, o líder da prova perdeu 12 minutos nos pits para trocar o alternador, perdendo também 4 voltas em relação ao líder, agora o Peugeot #2.

Após o amanhecer, fogo e fumaça foram vistos na curva Tetre Rouge, era o Peugeot 908 #2, lider da prova. O carro foi parando lentamente ao longo da reta mulsanne, dando a liderança para o Audi #9, que não olhou para trás e liderou até o final da corrida.

Foto: dailysportscar.com

Ao final das 24 horas, o Audi R15 TDI Plus #9 de Mike Rockenfeller, Timo Bernhard, e Romain Dumas, assim como o Peugeot #9 fez no ano anterior, liderou seus companheiros de equipe em formação para um 1-2-3 da Audi em Le Mans.

Foto: Ferdi Kräling Motorsport-Bild GmbH

Uma vitória de redenção para a marca alemã, e uma derrota dolorosa para a marca francesa.

Entretanto, a marca de Sochaux terminou o ano com um saldo positivo, vencendo Petit Le Mans novamente e conquistando o título da Le Mans Cup e da Intercontinental Le Mans Series.

Já em 2011, ambas montadoras trariam novos carros para uma última batalha em Le Mans.

2011: A última batalha

Ambas montadoras trouxeram carros novos para 2011, a Audi trouxe o novíssimo Audi R18 TDI Ultra, um protótipo de cockpit fechado, com uma nova filosofia aerodinâmica e um motor V6 turbo.

Foto: F.Kraeling Motorsport-Bild-GmbH

Já a Peugeot trouxe o Peugeot 908, que era nada mais que uma evolução do 908 HDi FAP, com um motor V8 Twin-Turbo.

Foto: Wouter Melissen

Os novos carros foram desenvolvidos para o novo regulamento de Le Mans, que iriam permitir a participação de carros híbridos, logo, ambas montadoras já pensavam em carros para acomodar todo o sistema híbrido futuramente.

O treino classificatório para as 24 horas de Le Mans de 2011 terminou com a Audi tendo a primeira fila para si, com o primeiro Peugeot em 3°, 2 décimos atrás do tempo da pole.

Foto: Alessandro Prada

A corrida começou com várias batalhas entre as duas montadoras, com o acidente espetacular de Allan McNish tirando o Audi #3 da prova.

Durante a noite, outro acidente grave envolvendo o Audi R18, desta vez com Rockenfeller, ao tentar ultrapassar a Ferrari 458 Italia #71 pilotada por Rob Kauffmann, o Audi foi tocado na traseira, sendo jogado em um ângulo de 90 graus no guard-rail, tirando o Audi da Corrida. Kauffmann foi proíbido de voltar a corrida pela direção de prova após o incidente.

As batalhas entre Audi e Peugeot foram intensas até o final, onde o Audi R18 Ultra #2 pilotado por André Lotterer, Marcel Fässler, e Benoît Tréluyer conseguiu se distanciar do Peugeot #9 e vencer as 24 horas de Le Mans de 2011, 13 segundos à frente do Peugeot.

Foto: Audi AG

Mesmo com a vitória, a Audi não conseguiu desbancar sua rival francesa na International Le Mans Series, com o novo Peugeot 908 vencendo 5 das 7 provas da temporada.

Com a criação do Campeonato Mundial de Endurance (WEC) em 2012, era de se esperar que o duelo continuasse a se intensificar, principalmente com a introdução do sistema híbrido em ambos os carros, porém não foi isso que aconteceu.

2012: O triste fim do Peugeot 908

Antes mesmo da temporada inaugural do WEC se iniciar em Sebring, a Peugeot anunciou que iria cancelar o programa do 908 de forma imediata em meio a crise econômica européia. A equipe da Peugeot já estava em Sebring se preparando para os testes quando o anúncio foi feito.

Foto: dailysportscar.com

Mesmo com o anúncio de saída da categoria LMP1, a marca francesa manteve o interesse em retornar à Le Mans caso houvesse uma melhora na situação econômica da marca. E isso aconteceu em 2021, quando a marca de Sochaux apresentou ao mundo o inovador Peugeot 9X8 para entrar na classe Hypercar, fazendo sua estreia em 2022 e continuando firme e forte no WEC nos dias de hoje.

Foto: Bob van der Wolf

Já a Audi abandonou seus esforços em quase todas as categorias que participava em 2022, com o programa de Le Mans terminando em 2016, para focar em sua nova empreitada na Fórmula 1 em 2026.

Foto: David Lord/Audi Communications Motorsport

Assim terminou a curta, porém intensa, rivalidade entre Audi e Peugeot em Le Mans. Uma rivalidade que quebrou uma hegemonia de 9 anos de um dos maiores grupos automotivos, que marcou a carreira de vários pilotos e que é, de certa forma, tratada mais como uma nota de rodapé do que um capítulo na história das rivalidades em Le Mans.

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