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Suíça desfaz proibição de corridas em circuito após 71 anos no país

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Suíça
Foto: Divulgação

Decisão histórica do Conselho Federal suíço, tomada em 6 de maio de 2026, revoga o Artigo 52 da Lei de Trânsito e permite corridas em circuito a partir de 1º de julho, encerrando um veto que durou mais de sete décadas

A Suíça encerrou oficialmente um dos períodos mais longos de restrição ao automobilismo na história do esporte a motor. Em reunião realizada no dia 6 de maio de 2026, o Conselho Federal suíço aprovou a entrada em vigor da alteração da Lei Federal de Trânsito Rodoviário, que elimina a proibição de corridas em circuito no território nacional. A mudança passa a valer a partir de 1º de julho de 2026.

Portanto, o Artigo 52, dispositivo legal que vedava o automobilismo competitivo no país há 71 anos, é formalmente revogado. O anúncio foi recebido com celebração pela comunidade automobilística internacional e encerra um capítulo que começou com uma das maiores tragédias do esporte a motor.

A tragédia que originou o veto em 1955

A proibição nasceu de um episódio devastador nas 24 Horas de Le Mans, na França. Em 11 de junho de 1955, um acidente envolvendo o piloto Pierre Levegh resultou em 83 mortes entre espectadores e deixou quase 200 feridos. O carro de Levegh colidiu e foi arremessado em direção às arquibancadas, causando um dos maiores desastres da história do automobilismo mundial.

A comoção foi imediata. Vários países proibiram corridas em seus territórios logo após o episódio. Contudo, enquanto França, Alemanha e Espanha recuaram rapidamente de suas restrições, a Suíça manteve a proibição e a formalizou em lei. Em 1958, o Artigo 52 da Lei de Trânsito tornou o veto ainda mais explícito, proibindo qualquer corrida de velocidade com presença de público, em circuito ou em estrada.

Sete décadas de tentativas e recuos

O caminho até a revogação definitiva foi marcado por avanços e retrocessos ao longo de décadas. Em 2007, a câmara baixa do parlamento suíço aprovou uma emenda para encerrar a proibição. Contudo, o senado bloqueou a proposta duas vezes seguidas, retirando-a definitivamente em 2009. O argumento central deixou de ser a segurança e passou a ser o impacto ambiental de circuitos e do automobilismo em geral.

Uma primeira abertura aconteceu em 2015, quando o governo suíço flexibilizou a lei para permitir corridas exclusivamente com veículos elétricos. Essa mudança pontual abriu caminho para um momento histórico em junho de 2018, quando Zurique sediou o primeiro ePrix da Fórmula E realizado no país, encerrando 63 anos sem corridas no solo helvético.

2022: o parlamento vota e define o fim da era da proibição

A virada definitiva ocorreu em maio de 2022. O Conselho dos Estados, equivalente ao senado suíço, aprovou a moção da Comissão de Transportes e concordou com a revogação da proibição de corridas em circuito. A decisão foi tomada no contexto de uma revisão mais ampla da Lei de Trânsito Rodoviário.

Além disso, o processo contou com aprovação das duas câmaras do parlamento, encerrando décadas de impasse legislativo. A data de 1º de julho de 2026 foi estabelecida como marco para a entrada em vigor da nova legislação, dando ao país um período de adaptação para estruturar o novo modelo regulatório.

Autorizações ficam sob responsabilidade dos cantões

A liberalização não significa abertura irrestrita para qualquer evento. Com o fim da proibição federal, a responsabilidade pela autorização de corridas passa para os cantões, as unidades federativas que compõem o território suíço. Cada evento precisará ser aprovado individualmente pelas autoridades locais, que deverão verificar o cumprimento de normas de segurança e de proteção ambiental.

Por outro lado, essa estrutura descentralizada pode criar cenários distintos dentro do próprio país. Cantões com maior sensibilidade ambiental ou pressão de grupos locais tendem a ser mais restritivos. Contudo, a queda da proibição federal representa o obstáculo mais importante superado, e o restante do processo depende de negociações regionais.

O desafio concreto: não existem circuitos na Suíça

Além das questões regulatórias, um problema prático se impõe. O país não possui circuitos permanentes de corrida. Décadas de proibição eliminaram qualquer incentivo para construção de instalações do tipo, e os únicos espaços disponíveis atualmente são centros de segurança viária.

Portanto, a realização de eventos de grande porte ainda exigirá investimentos significativos em infraestrutura. Especialistas apontam que antigas áreas militares e terrenos em regiões descentralizadas seriam os locais mais viáveis para a construção de um circuito nacional. A perspectiva mais realista é de um traçado de menor porte, voltado para múltiplas finalidades, como testes, eventos corporativos, cursos de pilotagem e corridas regionais.

Um país com história no automobilismo

A ironia da situação é que a Suíça tem uma relação histórica profunda com o esporte a motor, apesar das décadas de proibição. O circuito de Bremgarten, em Berna, foi palco do Grande Prêmio da Suíça de Fórmula 1 de 1934 até 1954, sendo considerado um dos traçados mais exigentes e belos da época. A última edição em território suíço aconteceu justamente em 1954, um ano antes da tragédia que selou o destino das corridas no país.

Além disso, o país produziu pilotos de alto nível mesmo sem poder competir em casa. Nomes como Jo Siffert, Clay Regazzoni, Marc Surer, Sébastien Buemi e Neel Jani construíram carreiras internacionais relevantes, todos obrigados a buscar formação e competição além das fronteiras nacionais.

Celebração e perspectivas para o futuro

A notícia gerou reação imediata na comunidade automobilística. A piloto suíço-francesa Laura Villars, originária de Genebra e que tentou a presidência da FIA em 2025, foi uma das vozes mais entusiasmadas. “Obrigada, Suíça. Após 70 anos, a proibição de corridas em circuito foi levantada”, publicou ao saber da decisão do Conselho Federal.

Por outro lado, as expectativas precisam ser calibradas. A construção de um circuito leva anos, os debates ambientais nos cantões serão intensos e a chegada de grandes campeonatos internacionais, como a Fórmula 1 ou o WEC, ainda é um horizonte distante. Contudo, o marco legal de julho de 2026 é o ponto de partida necessário para que qualquer projeto concreto possa avançar.

Um novo capítulo começa

A decisão de 6 de maio de 2026 ficará registrada como o momento em que a Suíça voltou a abraçar o automobilismo competitivo. O país que foi pioneiro no esporte a motor nas décadas de 1930 e 1940, e que pagou um alto preço emocional pela tragédia de 1955, dá agora um passo para reconciliar sua história com o presente de um esporte radicalmente mais seguro e tecnológico.

A partir de 1º de julho de 2026, organizar uma corrida em circuito na Suíça deixa de ser crime federal. O que vem a seguir depende de investidores, cantões e de uma comunidade automobilística que aguardou décadas por esse momento.

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