Entre em contato conosco

COLUNAS

Ao “operário” Alan Jones

Publicado:

em

Um dia, antes da decisão do mundial de 1980, o célebre Franco Lini comparou Nelson Piquet a Alan Jones.

Ao brasileiro, cravou elogios amáveis como ser um piloto de “puro talento” que entregava tudo em pista.

À Jones, sobrou uma certa admoestação: o cunhou de “operário”, incapaz de improvisar em pista.

Lini foi cruel? Talvez exagerado, mas sempre disse que um piloto já se torna grande quando chega e compete na F1, quem dirá ser do primeiro time e um campeão com talento ou sabendo fazê-lo para ser o melhor da temporada.

Alan Jones, apesar de se parecer mesmo, nas linhas gerais, como o tal “operário” que Franco Lini cravou em 1980, pode ser dito como um dos mais subestimados campeões mundiais da F1, talvez perdendo a popularidade dos vencedores com uma taça apenas para gente como James Hunt ou Keke Rosberg.

Alguns tiveram o apelo pop, como os dois supracitados. Damon Hill pode ser o mais lembrado na comparação com Jones por ainda aparecer em mídia e dar seus pitacos, assim como o filho de Keke, Nico Rosberg.

E até mesmo na Oceania, distante de se comparar com Jack Brabham, Jones ainda ficasse atrás em popularidade do vizinho da região, o também inesquecível Denny Hulme, um daqueles campeões em tempos românticos.

A estreia, em 1975 com um Hesketh particular

Em 1976, as primeiras voltas lideradas a bordo do polêmico Surtees

A verdade que a popularidade por outros elementos esconde o verdadeiro valor de um piloto que, pelos seus meios, fez por merecer ser um grande na galeria dos inesquecíveis. E nisso, a história escrita por Alan Jones tem louros que muitos jamais imaginariam o conceder.

Estreou na F1 ainda em tempos altamente artesanais em mortíferos, passando por um Hesketh particular, a Embassy-Hill e uma Surtees que rompia padrões com sua “camisinha móvel” em 1976, carro onde liderou as primeiras voltas da carreira.

Conquistou a primeira vitória pela Shadow, no ano seguinte em um maluco GP austríaco. Mas seria acreditando num projeto de gente teimosa como o atleta sonhador Frank Williams que Jones encontraria seu lugar na história, e ele não tardaria a ser reconhecido por tal.

Jones tinha talento, e encontrou nos elementos da casa de Grove a fórmula necessária para deslanchar como tal. Imediatamente a primeira vitória do time de Frank, em 1979, engatou uma sequencia de três conquistas, somando quatro ao final do ano e chegando perto da briga da dupla de Maranello.

Na Williams, a grande glória: primeiro titulo da equipe em 1980, pelas mãos de Jones

Jones e Piquet na Argentina, em 1980: disputa equilibrada e final polêmico no Canadá

Mas foi 1980 em que, enfim, o bonachão australiano encontrou a glória e escreveu seu nome nos livros de história definitivamente. 10 pódios, sendo destes cinco vitórias, e nenhuma delas com uma misera gota de champanhe, em respeito e exigência dos investidores árabes.

Era, tecnicamente, o próximo da fila, sendo seguido imediatamente pelo seu vice-campeão e pedra no sapato daquele ano: Nelson Piquet e a voadora Brabham do tempo pós-Alfa Romeo. O tal operário fazia o que era parte de sua profissão e algo mais: levava aquele time tão cheirando a novo à conquista maior, se colocava entre os grandes, merecia o contracheque polpudo do jovem Frank naquele tempo.

E como um grande, virou alvo também das lutas internas que marcaram a Williams no ano seguinte, quando Carlos Reutemann levantou-se contra as ordens do time e cravou, ainda no começo de 1981, uma das imagens mais icônicas da categoria: a flagrante desobediência a ordem de equipe e, por conseguinte, a reprovação do australiano que, contando o tempo, já estava há muito tempo correndo no circo para merecer isto.

A desobediência: Reutemann fura a ordem de equipe no Rio, em 1981, ao fim do ano, Jones deixa a Williams

O último trabalho na F1: a breve Lola/Haas, em 1986

Terminou 1981 honrosamente, com mais duas vitórias no bojo e uma saída silenciosa. Regressaria por outras três vezes, mas sem mais repetir grandes atuações. Apenas atuando como o mero operário que Franco Lini dizia que o era ainda nos tempos de glória. Exemplo disso foi contribuir com a remontada da Ford em meio ao competitivo programa turbo como seu último ato, já em 1986 pela casa de Carl Haas, a Beatrice/Lola/Force.

Percorreu o universo veloz como um grande e trabalhou para chegar lá. E quando recolhido, jamais perdeu o respeito que é conferido a aqueles que, nos tempos mais incertos e perigosos da categoria, sobreviveu e ainda tem para si uma glória tão grande quanto um titulo.

Hoje, a Williams pode estar ainda longe de dias gloriosos como os vividos por Jones, mas a verdade é que foi com seu tento e a crença no projeto ainda incipiente de um construtor sonhador e teimoso que fez da casa de Grove um dos nomes mais reconhecíveis da F1 em todos os tempos.

Antes de ser marca de um canadense arrojado, o #27 foi o símbolo da jovialidade de ideias quanto a uma equipe de F1 em si, e marca até hoje a primeira vez que a iniciativa de Frank e Patrick chegou ao topo, com o dedo australiano de um operário, um operário padrão que sabia acelerar e faz o seu na pista.

A sombra de Jones, um de seus continuadores: Daniel Ricciardo

Poucos dias depois de virar 80 voltas ao redor do sol, parte Alan Jones, uma parte da fina flor da velocidade dos “down under” como Jack Brabham, de discípulos como Mark Webber ou Daniel Ricciardo ou de continuadores como Oscar Piastri e Jack Doohan, cada um a sua maneira balançado a bandeira da terra dos cangurus mais alto no pódio.

E Jones foi uma das flores mais brilhantes desta trupe. O dito “operário do automobilismo” que chegou lá, e que se não é lembrado por esta geração pop imediatista de hoje, sempre terá um lugar de honra nos que conheceram sua história e conquistas no #27 da casa de Grove.

Godspeed Alan Jones.

Compartilhe esta publicação
Clique para Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.