WEC
Toyota encerra temporada de títulos e já projeta desafio maior no WEC 2027
Às vésperas das 6 Horas de Monza, David Floury relembra as conquistas de 2026, explica a evolução do TR010 HYBRID e destaca a dificuldade de defender os campeonatos diante de novos concorrentes.
A Toyota chega às 6 Horas de Monza com os dois títulos mundiais do Campeonato Mundial de Endurance (WEC) assegurados. Antes da etapa final da temporada 2026, marcada para os dias 6 a 8 de novembro, o diretor técnico da TOYOTA RACING, David Floury, avaliou a campanha da equipe e os fatores que contribuíram para a retomada da liderança na categoria Hypercar.
Em entrevista ao site oficial do campeonato, o engenheiro francês destacou o trabalho coletivo que levou a fabricante japonesa ao título de Construtores e à dobradinha na classificação de Pilotos. A temporada também teve como momentos importantes a vitória nas 24 Horas de Le Mans e o triunfo nas 6 Horas de Fuji, diante da torcida da marca.
Floury considera que o desempenho representa uma resposta ao campeonato anterior, quando a Toyota terminou em segundo lugar entre os fabricantes. Na avaliação do dirigente, a equipe conseguiu recuperar a regularidade e transformar o trabalho desenvolvido ao longo do ano em resultados.
“Estou muito feliz por toda a equipe, porque todos trabalharam incansavelmente para nos colocar nesta posição este ano”, afirmou. “Após uma temporada de 2025 mais desafiadora, nos recuperamos.”
TR010 HYBRID marcou a retomada da Toyota
Parte importante da reação da fabricante esteve ligada à chegada do TR010 HYBRID. O novo protótipo foi desenvolvido para atualizar o visual do modelo e aprimorar seu comportamento em pista, com mudanças voltadas tanto aos pilotos quanto aos profissionais responsáveis pela preparação do carro.
Floury explicou que a evolução estética precisava acompanhar a identidade visual mais recente da marca. Ao mesmo tempo, o projeto buscou facilitar o trabalho de quem conduz e ajusta o hipercarro durante os fins de semana de corrida.
“Era vital para a marca evoluir o hipercarro com um visual renovado, mais alinhado à sua linguagem de design moderna”, explicou. “O objetivo também era tornar o carro mais fácil de usar para os motoristas, mais simples para os engenheiros configurarem e mais consistente em todas as condições.”
Mesmo com as mudanças, o diretor técnico evitou tratar o desempenho como algo garantido antes da bandeirada. A experiência acumulada no automobilismo, especialmente a lembrança de uma derrota dolorosa em Le Mans, influencia sua postura diante das corridas.
Em 2016, o Toyota TS050 Hybrid #5 abandonou quando liderava as 24 Horas de Le Mans, a apenas quatro minutos do fim. Floury ainda guarda essa lembrança e afirma que não considera uma disputa encerrada antes da chegada.
“Raramente acredito que algo esteja terminado até cruzar a linha de chegada, e não sou naturalmente excessivamente confiante. O excesso de confiança geralmente leva a erros.”
Estratégia abriu a temporada com vitória em Ímola
A campanha de 2026 começou com um resultado expressivo nas 6 Horas de Ímola. A prova marcou a 100ª participação da Toyota no WEC e terminou com a 50ª vitória da fabricante na história do campeonato.
Na ocasião, a equipe superou a Ferrari em uma disputa decidida também pelo trabalho estratégico e pela execução durante a corrida. Segundo Floury, a velocidade pura não foi o único fator determinante para alcançar o primeiro triunfo do ano.
“Conseguimos vencer mais pela estratégia e execução do que pela velocidade pura.”
A Toyota voltou a enfrentar uma prova exigente nas 24 Horas de Le Mans. Os TR010 HYBRID #7 e #8 não apresentaram a maior velocidade em pista, mas a equipe conseguiu manter os dois carros na disputa e superar dificuldades ao longo da corrida.
O resultado foi uma vitória do #7 e a terceira colocação do #8. A soma garantiu 80 pontos à Toyota na etapa francesa e abriu uma vantagem de 36 pontos sobre a BMW na classificação de fabricantes da Hypercar.
Floury classificou Le Mans como a corrida mais difícil da temporada. Para o dirigente, a equipe precisou trabalhar para contornar os problemas enfrentados pelos dois protótipos e mantê-los competitivos até o encerramento da prova.
“Le Mans é uma corrida única e inerentemente brutal. Tivemos que nos superar como equipe para vencer os problemas em ambos os carros e mantê-los na disputa até o final.”
São Paulo e Austin reduziram a vantagem no campeonato
Depois da campanha em Le Mans, a Toyota chegou às 6 Horas de São Paulo com uma margem confortável na liderança. Entretanto, a etapa brasileira representou um dos momentos mais complicados do campeonato para a equipe japonesa.
Os dois carros tiveram dificuldades para encontrar ritmo e terminaram longe das primeiras posições. O #7 concluiu a prova em 12º lugar, enquanto o #8 ficou na 17ª colocação. Com o resultado, a vantagem sobre a BMW caiu de 36 para nove pontos.
Floury reconheceu a dificuldade de acompanhar a disputa sem conseguir interferir diretamente no resultado. “Você acaba virando espectador, e essa nunca é uma posição confortável”, afirmou. “Foi uma corrida frustrante.”
A etapa seguinte, em Austin, também trouxe um desfecho difícil. O Toyota #7 liderava a corrida com Nyck de Vries ao volante quando sofreu uma falha hidráulica nos minutos finais. O problema encerrou as chances de vitória da equipe em uma prova na qual o protótipo tinha condições de somar pontos importantes.
Kamui Kobayashi, companheiro de equipe de De Vries e chefe da Toyota, lamentou a oportunidade perdida. “Era uma grande oportunidade para nós marcarmos muitos pontos, então obviamente foi difícil de aceitar”, declarou. “Mas isso é corrida de resistência. Precisamos aprender e melhorar.”
O carro #8 também enfrentou dificuldades em Austin. Uma penalidade por excesso de velocidade nos boxes foi consequência de uma falha de software, segundo Floury, sem relação com a atuação do piloto. O problema foi identificado e corrigido pela equipe, assim como a falha hidráulica do #7.
Para o diretor técnico, os episódios reforçaram a necessidade de melhorar a confiabilidade dos protótipos. “Abandonar a corrida a 12 minutos da linha de chegada pode parecer azar, mas eu vejo de forma diferente”, disse. “Problemas de confiabilidade simplesmente não deveriam acontecer conosco. Precisamos ser melhores do que isso.”
Fuji e Barcelona recolocaram a Toyota no caminho das vitórias
A resposta da equipe veio nas 6 Horas de Fuji. Correndo em casa, a Toyota voltou a vencer no circuito japonês pela primeira vez desde 2023. A conquista foi construída com decisões estratégicas e execução precisa nos momentos finais da prova.
Floury destacou que a equipe não dependia de uma vantagem expressiva de velocidade para alcançar o resultado. A vitória, segundo ele, demonstrou a capacidade de aproveitar as oportunidades durante a corrida.
“Não vacilamos quando mais importava”, relembrou. “Não tínhamos velocidade para vencer apenas com desempenho puro, o que diz muito sobre a força desta equipe.”
Em Barcelona, a Toyota voltou a vencer e surpreendeu até mesmo os integrantes da própria equipe. De acordo com Floury, a fabricante japonesa não havia realizado testes recentes no Circuito de Barcelona-Catalunha, mas apresentou um desempenho superior ao esperado durante a etapa.
O dirigente considera que a corrida espanhola foi a única das quatro vitórias da temporada conquistada com superioridade de desempenho em relação aos concorrentes. As outras três tiveram características diferentes, com estratégia e execução exercendo papéis importantes.
“Durante a corrida, ficamos surpresos com a nossa força em comparação com a concorrência. Barcelona foi a única corrida que vencemos por mérito próprio. Até o momento, vencemos quatro das sete corridas, cada uma à sua maneira.”
Floury também relacionou o resultado ao comportamento do TR010 HYBRID em pistas com maior abrasividade. O asfalto de Barcelona apresenta características semelhantes às do Bahrein, onde a Toyota venceu as nove últimas corridas realizadas no circuito.
A capacidade de preservar os pneus, segundo o diretor técnico, contribuiu para o desempenho da equipe. “Gerenciamos o desgaste dos pneus melhor do que nossos concorrentes, e essa é uma grande vantagem para nós.”
Monza será a despedida de Mike Conway
Com os títulos já definidos, a Toyota chega à Lombardia com menos pressão para a última etapa do calendário. As 6 Horas de Monza, disputadas no Autódromo Nacional de Monza, apresentam características diferentes das encontradas em Barcelona.
O circuito italiano combina velocidades elevadas, pista estreita e áreas de escape reduzidas. As temperaturas mais amenas também fazem parte das condições previstas para o fim de semana. Floury reconhece que o cenário exigirá atenção, mas considera que a conquista antecipada dos campeonatos oferece maior tranquilidade à equipe.
“Isso nos dá um pouco de folga e alivia a pressão”, afirmou.
A prova também marcará a despedida de Mike Conway da competição. O britânico, que integra a formação do carro #7, decidiu encerrar sua carreira como piloto. Floury acompanhou diferentes momentos da trajetória do competidor e recordou a primeira vez que o observou em ação.
O engenheiro estava em Macau, em 2006, quando Conway venceu o Grande Prêmio. Naquela ocasião, Kamui Kobayashi conquistou a pole position. Anos depois, a Toyota acompanhou o desempenho do britânico na categoria LMP2 do WEC, em 2013, quando ele pilotava o ORECA 03 #26 da G-Drive.
Conway participou de uma sessão de testes com a fabricante japonesa em 2014 e permaneceu na equipe desde então. Nesse período, conquistou duas vitórias gerais nas 24 Horas de Le Mans, em 2021 e 2026, além de dois títulos mundiais, nas temporadas 2019-20 e 2021.
Floury esteve presente nas comemorações de duas conquistas importantes do piloto: a primeira vitória, nas 6 Horas do Bahrein de 2014, e a mais recente, em Le Mans, em 2026. O dirigente destacou não apenas os resultados esportivos, mas também a relação profissional construída ao longo dos anos.
“Ele é um verdadeiro cavalheiro, um jogador de equipe exemplar e alguém com quem é sempre um prazer trabalhar. É um imenso orgulho ter compartilhado essa jornada.”
Toyota prevê disputa mais acirrada em 2027
Depois de Monza, a fabricante japonesa começará a preparação para defender os títulos na temporada 2027. Floury espera um campeonato ainda mais exigente, especialmente diante do crescimento do número de fabricantes envolvidos na classe Hypercar.
O dirigente citou a BMW M Team WRT entre os adversários que merecem reconhecimento pelo trabalho realizado durante o ano. Ele também ressaltou o nível de competitividade apresentado pelos concorrentes e a importância de manter a Toyota em evolução.
Ao projetar o próximo campeonato, Floury destacou a chegada de McLaren e Ford à categoria. A presença de marcas com tradição nas provas de endurance deve ampliar a disputa na classe principal do WEC.
“Defender nossos títulos será difícil, mas estamos ansiosos para competir novamente no ano que vem”, afirmou o diretor técnico. Ele também ressaltou a dimensão do grid que está sendo formado para a próxima temporada.
“Ter pelo menos nove fabricantes na Hypercar, incluindo alguns dos maiores nomes da história de Le Mans, é incrível. É um campeonato de alto nível com competidores de elite, mas estamos aqui para lutar pela vitória em Le Mans e pelos títulos, e vamos nos esforçar ao máximo para que isso aconteça.”
Antes de iniciar esse novo desafio, a Toyota terá as 6 Horas de Monza como último compromisso de 2026. A etapa, disputada entre 6 e 8 de novembro, encerra uma temporada marcada pela recuperação da equipe, pelas quatro vitórias e pela conquista dos campeonatos de Construtores e Pilotos.
