Fórmula 1
Segunda Bandeirada #55: O novo regulamento deu errado – e não foi por falta de aviso

Foto: Lars Baron/LAT Images/ Mercedes F1Team
Eu adoraria voltar a escrever nesta coluna sobre o aspecto esportivo da Fórmula 1. Falar de Kimi Antonelli, o mais jovem líder de um campeonato da história – seus 19 anos fizeram dele o piloto que destronou Lewis Hamilton deste posto. Destacar o desempenho de Charles Leclerc e sua garra para lutar contra uma Mercedes muito superior. Lamentar o limbo de Lando Norris e Max Verstappen, protagonistas de um bom campeonato e coadjuvantes no outro – o tetracampeão não parece ter dias longos na categoria.
Queria falar de muita coisa, mas esses e outros assuntos perdem a importância quando estamos diante de uma tragicômica F1 com seu regulamento absolutamente desastroso. Na marra e sem ouvir as previsões de pilotos e chefes de equipe, a FIA impôs um arremedo de FE que nos faz questionar se ainda vale a pena acompanhar a categoria. Carros perdem velocidade no meio das retas, ultrapassagens totalmente artificiais e acidentes causados pelo gerenciamento – ou a falta dele – de bateria proporcionam ao público um show de horrores.
Recordem, por exemplo, a batalha entre Lando Norris e Lewis Hamilton na parte final do Grande Prêmio do Japão. Norris ultrapassava Hamilton antes da última chicane da pista e levava o troco na reta principal por não ter condições mínimas de oferecer qualquer resistência a Hamilton. A bateria simplesmente acabava e nem mesmo tomar a linha de dentro adiantava alguma coisa para o piloto da McLaren. É a antítese de qualquer coisa merecedora do nome ‘’automobilismo’’.
As ultrapassagens ficaram mais fáceis, dirão os envergonhados defensores desta aberração. Será mesmo? Os números apontam essa direção, fato. Porém, vejam a situação de Max Verstappen: ele ficou voltas a fio tentando ultrapassar Norris em Melbourne e Gasly em Suzuka. Andava sempre abaixo de um segundo com a possibilidade de utilizar o modo ultrapassagem, mas sem sucesso. Nem com tamanha ruindade do RB22 – e ela não é pequena – pode haver explicação.
A explicação óbvia e que todos sabem está nas ridículas unidades de potência deste regulamento e suas baterias imprestáveis.
Não foi por falta de aviso. Max Verstappen era o maior crítico deste regulamento já na fase de estudos e era acompanhado por Christian Horner, ambos da Red Bull. Mas eles não foram os únicos: Fernando Alonso e Lance Stroll também espinafraram a nova ordem de coisas da F1 no ano passado. Já era pedra cantada que os carros seriam dois ou três segundos mais lentos e perderiam velocidade nas retas, mas a artificialidade das ultrapassagens tornou tudo pior.
E quem disse que a única plasticidade do automobilismo é ultrapassar? Defender posição é uma arte tão singular que poucos dominam, com os maiores pegas da história retratando isso. Ayrton Senna segurou Nigel Mansell e sua Williams de outro planeta no braço em Mônaco, mesmo com o britânico de pneus novos, máquina muito superior e colado no brasileiro. Treze anos depois, foi a vez de Fernando Alonso resistir a Michael Schumacher por várias voltas em Ímola, dando uma verdadeira aula de como defender a dianteira da corrida ao fechar a porta para o heptacampeão. E como esquecer o atraso que Sérgio Perez deu em Lewis Hamilton em Abu Dhabi? Nos casos anteriores, Senna e Alonso venceram suas corridas, enquanto a trancada de Perez valeu ao companheiro Verstappen o tempo determinante para a conquista do seu primeiro título.
Não importa quantas ultrapassagens ou trancadas temos numa corrida. O que queremos é automobilismo de verdade: velocidade máxima, economia mínima e o melhor piloto vence. Comparar o gerenciamento de baterias com a categoria de tempos atrás é deprimente. Como disse Eddie Jordan, a F1 era sexo sobre rodas. Todos pisando fundo e andando com a faca entre os dentes.
Como andar no limite quando se perde velocidade nas retas e não se tem a menor chance de defender uma posição? Aliás, a incapacidade em oferecer qualquer resistência faz com que os carros estacionem nas curvas e provoquem acidentes sérios, como o de Oliver Bearman em Suzuka: ele bateu após se aproximar de Franco Colapinto na curva Spoon aproximadamente 50 km/h mais veloz. Sem ter o que fazer, Bearman perdeu o controle do carro e enfrentou um impacto de 50G. Não por acaso o britânico saiu mancando da sua Haas.
Além do fator esportivo, a segurança também exige responsabilidade da categoria em desfazer um erro crasso. O novo regulamento é uma piada sem a menor graça e a FIA precisa fazer algo para corrigi-lo o quanto antes.
