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Pilotos da Fórmula E desafiam a FIA por melhorias no esporte

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Foto: Jordan McKean/LAT Images

Movimento liderado por Lucas di Grassi e Oliver Rowland busca reformular processos e a tomada de decisões no campeonato elétrico após tentativas frustradas de diálogo.

O paddock da Fórmula E em Jarama, palco do E-Prix de Madri de 2026, foi tomado por uma tensão que transcende as pistas. O motivo é uma correspondência “bombástica” enviada diretamente a Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA, assinada por todos os 20 pilotos do grid. O documento, que expõe críticas severas à direção de prova e ao corpo de comissários, revela uma fratura profunda na comunicação entre quem conduz os carros e quem dita as regras.

Lucas di Grassi, campeão da terceira temporada e um dos arquitetos da iniciativa ao lado do atual campeão Oliver Rowland, detalhou as motivações do grupo. Segundo o brasileiro, a ação não é um ato de rebeldia gratuita, mas uma tentativa de evolução. “A verdadeira razão pela qual enviamos esta carta é porque queremos que o esporte seja melhor”, afirmou di Grassi em entrevista exclusiva à The Race.

Um menu de queixas e a busca por competência específica

A carta detalha um histórico de insatisfações, incluindo a percepção de que falta aos oficiais uma compreensão fundamental do estilo de corrida único da Fórmula E, especialmente nas estratégias de economia de energia. Entre as solicitações mais contundentes está uma “avaliação interna” sobre o diretor de prova, Marek Hanaczewski. Os pilotos questionam sua interpretação dos regulamentos esportivos, afirmando que “sem a humildade para reconhecer e aprender com erros, não há evidência de melhoria contínua”.

Os pilotos também exigem a nomeação de consultores que tenham experiência direta pilotando os carros da categoria. Atualmente, o quadro de conselheiros conta com nomes como Enrique Bernoldi e Pedro Lamy, que, apesar do currículo vasto, nunca competiram na Fórmula E. O grupo defende que apenas quem já sentiu as nuances do gerenciamento de energia na pista pode julgar incidentes de forma justa.

Além das críticas individuais, di Grassi utiliza uma analogia do livro Black Box Thinking para explicar o cerne do problema. Ele compara a aviação, que reduziu acidentes ao analisar falhas de processo, com sistemas que estagnam ao focar apenas no erro humano. “Queremos mudar o processo para que haja menos erros. No momento, não há um método para isso na FIA”, explicou.

O choque nos boxes e o risco de retaliação

A manobra dos pilotos foi tão silenciosa quanto os motores de seus carros: os chefes de equipe foram pegos de surpresa. A maioria só soube da carta mais de 24 horas após o envio a Ben Sulayem. Esse distanciamento gerou um mal-estar político imediato. Embora a FETAMA (associação das equipes) tenha se apressado em se distanciar formalmente do movimento junto à FIA, o clima interno é de incerteza.

Informações de bastidores indicam que algumas equipes consideram punir seus pilotos por “quebra de hierarquia”, com ameaças que variam de multas contratuais até a retenção de pagamentos de bônus. Enquanto isso, diretores de equipe, sob anonimato, defendem Hanaczewski, alegando que ele tem sido proativo e que as críticas podem não ser totalmente justificadas.

O fantasma de 1982 e o futuro da governança

O movimento atual traz ecos da famosa greve de pilotos em Kyalami, em 1982, quando o grid da Fórmula 1 se uniu contra a federação. Embora uma greve seja improvável hoje devido aos contratos rigorosos, a união total dos 20 pilotos coloca a FIA em uma posição difícil. Desconsiderar um apelo unânime de seus principais ativos é um risco político que Ben Sulayem, esperado em Jarama este fim de semana, terá que gerenciar com cautela.

Em nota oficial, a FIA afirmou estar revisando os comentários e que mantém uma “abordagem proativa” para garantir os mais altos padrões. Já o promotor da categoria preferiu não comentar.

Para Tommaso Volpe, diretor da Nissan, a solução para profissionalizar esse diálogo seria a criação de uma associação formal de pilotos. Isso evitaria “cartas bombásticas” e criaria um processo estruturado de governança entre pilotos, equipes e federação. Por enquanto, o grid aguarda para ver se sua aposta resultará em uma reforma real ou se será apenas mais um ponto de inflamação na história do automobilismo elétrico.

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