Fórmula 1
Segunda Bandeirada #43: A pompa da rivalidade Senna vs Piquet que só existe na cabeça dos fãs
Poucas coisas me irritam mais que a idolatria cega a Ayrton Senna. Qualquer coisa que se aponte como erro ou falha do tricampeão, as pedras nas mãos dos seus ardorosos defensores são garantidas. Aliás, nem precisa disso: basta considerar outro piloto melhor que ele – não se enganem, eles existem no plural – para você virar um desqualificado ou mesmo odiar Senna.
Não vi Senna correr, mas as corridas estão aí para quem quiser assistir. Sua qualidade é um fato indiscutível, o que o coloca no hall dos maiores de todos os tempos. Porém, o mundo gira em torno do Sol, não de Ayrton Senna. É assim em qualquer coisa e no automobilismo também. Ninguém que tenha rivalizado ou apontado um defeito dele é necessariamente um invejoso de marca maior.
Eis o caso de Nelson Piquet. Tricampeão como Senna, sua carreira fantástica na Fórmula 1 é relegada ao limbo dos antipáticos – ele contribuiu muito para isso, bom que se diga. O pouco que se vê nos cortes pelas redes sociais é relacionado a Senna, a dita rivalidade entre ambos, alfinetadas ao compatriota e a ultrapassagem no Grande Prêmio da Hungria de 1986 – a mais linda da categoria junto com a de Mika Hakkinen em Michael Schumacher no GP da Bélgica 2000.
É um roteiro conhecido: basta Piquet aparecer no seu feed e você já tem uma ideia do que vem em seguida. Os comentários rememoram uma inveja dele de Senna, amargura por não ser amado pelo público geral e enorme ressentimento. Com base no que mesmo?
Aliás, cabe a pergunta: Senna e Piquet disputaram o que mesmo? Não há um título sequer com ambos como postulantes máximos. Temos o GP do Brasil 1986 como exemplo máximo de briga nas pistas com vitória de Piquet e Senna chegando a distantes 34 segundos. Quando Ayrton fez sua estreia na F1, Nelson já era bicampeão e consagrado como um dos melhores da categoria. A diferença entre os respectivos estágios de carreira não poderia ser mais díspar.
Enquanto Piquet conquistou o tricampeonato de 1987 e obteve pouco brilho na Lotus e na Benetton, Senna pavimentou o caminho para conquistar seus três títulos na McLaren. Com exceção de duas vitorias – Suzuka 1990 e Montreal 1991 – e alguns pódios, Nelson demonstrou não ser o mesmo piloto de outrora, constatação que ele mesmo nos ofereceu ao falar do acidente na Tamburello no ano da sua última conquista. Ayrton demonstrava potencial e dominou a melhor equipe da época, confirmou o seu talento absurdo e manteve-se como um dos protagonistas da F1 até a sua morte em 1994, na mesma Tamburello.
Em termos puramente esportivos, a querela entre sennistas e piquesistas não faz o menor sentido. A guerra declarada entre os dois é algo além das pistas, briga de egos alimentada pela imprensa da época. Tanto é que Senna gravou um vídeo para Piquet após o seu acidente na classificação para as 500 milhas de Indianápolis, enquanto ele demonstrou um visível abatimento pela morte precoce do então piloto da Williams.
Não se trata de amar ou odiar incondicionalmente piloto A ou B. Isso é passionalidade que não combina com o jornalismo, embora o amor pelo automobilismo seja algo natural para quem trabalha nesse meio. A questão é que tanto Ayrton Senna quanto Nelson Piquet foram pilotos geniais, competidores extraordinários e venceram de forma inconteste nas pistas pela categoria mais popular do esporte a motor. Os dois conquistaram três títulos mundiais e são frequentemente lembrados Brasil afora como integrantes do Olímpio da F1. Ao invés de instigar uma briga que ficou no passado – Bruno Senna e Nelsinho Piquet dão razão a este escriba – sem sentido algum, o brasileiro deveria ter orgulho desses dois semideuses do volante.
Nelson Piquet é maior que os comentários sobre Ayrton Senna, a ultrapassagem na Hungria ou o entrevero entre ambos. E o próprio Ayrton é maior que a imagem distorcida e endeusada que se criou dele por aqui. A rivalidade dos dois é algo que tomou uma proporção incompatível com as respectivas trajetórias, pois dentro das pistas nunca houve essa briga de foice. Toda essa pompa e circunstância só existe na cabeça dos fãs.
