Fórmula 1
Segunda Bandeirada #42: Uma promissora jornada
Não há como negar o óbvio: a chegada de Lewis Hamilton na Ferrari é o grande acontecimento da Fórmula 1 neste 2025. O casamento entre o piloto mais vitorioso da história da categoria com a equipe que é maior que ela própria – disse isso num texto sobre o comendador Enzo – já é a maior transferência de todos os tempos e, a depender dos acontecimentos nas pistas, será ainda mais significativa.
Como não sentir o peso da história sendo escrita diante dos nossos olhos ao ver a foto de Hamilton em Maranello ao lado de um simbólico F40? Como gostam de dizer, é um registro com ‘’áurea’’. É a marca da chegada daquele que venceu sete vezes um título que os ferraristas esperam desde 2007, quando Kimi Raikkonen levou o cavalinho rampante à glória máxima ao vencer em Interlagos – disputa insana contra os dois adversários da McLaren, sendo um deles o próprio Hamilton.
Hamilton vestirá vermelho após anos de Mercedes – tanto na equipe alemã quando na tradicional McLaren, pois os ingleses usavam motor Mercedes. Não é mais aquele menino impetuoso de pilotagem agressiva, ultrapassagens inconsequentes e até mesmo incidentes bobos. Nada disso. Ele é um heptacampeão, dono dos principais recordes da categoria e de uma gama de atuações inesquecíveis. Qual o piloto que conseguiu vencer guiando um carro com três pneus por dois setores de uma volta? Qual piloto encarou um dilúvio na pista e soube ter cabeça para sair de sexto até a vitória na corrida da sua sétima estrela? E, é claro, qual piloto sai de uma sprint em último para vencer no domingo dando uma aula de pilotagem?
Ainda assim, muita gente torce o nariz para Hamilton e jura de pé junto que Charles Leclerc fará o mesmo que George Russell fez – superá-lo em duas temporadas. Fico me perguntando qual piloto é realmente bom se o mais vitorioso da história não é. Tenha dó. Quanto a Leclerc, ele virou um grandíssimo piloto do nada para as mesmas pessoas que o chamavam de pipoqueiro, não é mesmo? Antes inconsistente e sem a cabeça no lugar, agora o homem responsável por desbancar a farsa que é o heptacampeão. Tenha dó novamente.
Parece mesmo ser mal de heptacampeões. Michael Schumacher sofre as mesmas críticas, até pior. O piloto que ganhou dois campeonatos com uma equipe jamais vitoriosa novamente, venceu corridas com uma Ferrari capenga e depois colocou o mundo da F1 aos seus pés com cinco títulos seguidos também não é bom o bastante para a mesma turma. São aqueles saudosistas que decretaram a morte da categoria em 1994 e não por acaso julgam Ayrton Senna como único piloto realmente digno de tudo o que é bom. Só ele fazia milagre com carro ruim – não interessa se os seus três títulos foram conquistados com o melhor carro do grid e outros pilotos como Nelson Piquet, Alain Prost e o próprio Schumacher conquistaram a façanha máxima sem o melhor equipamento.
Com Hamilton é a mesma coisa. Não interessa nem mesmo um possível oitavo título, ele sempre será o mero apertador de botões que só ganha com carro dominante e nunca tira nada do braço. Por que assistir a categoria, então? Certas coisas são inexplicáveis de forma lógica e não dá para saber mesmo.
Bom, o que sei mesmo é que aquele menino que começou na escolinha de kart da McLaren, quase se tornou campeão mundial sendo rookie, alcançou a glória pela primeira vez quando tudo parecia perdido, empilhou títulos e vitórias como ninguém e fez do seu nome um ícone que vai além da F1 é um homem de quarenta anos que continua sedento por novas conquistas. Superar Schumacher e ser maior campeão da categoria de forma isolada é uma ambição que Lewis buscará de todas as formas. Seria o encerramento com chave de ouro numa carreira absolutamente incontestável e inesquecível.
A Ferrari é diferente de tudo e qualquer coisa. Guiar um dos carros vermelhos com o cavalinho rampante é uma responsabilidade enorme que grandes campeões – Prost, Alonso e Vettel – não suportaram e terminaram suas passagens por Maranello sem um título mundial. Conquistar a oitava estrela na Ferrari fará de Lewis Hamilton o maior de todos os tempos de forma inconteste. A mera possibilidade já faz dessa simbiose uma promissora jornada.
