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Automobilismo

O tiro da Mercedes saiu pela culatra

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Foto: Reprodução/ Motorsport.uol.com.br
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Uma imagem roubou a cena no GP do Azerbaijão. Lewis Hamilton demorou para sair do cockpit após o final da corrida por uma dor nas costas absurda. Depois de levantar do carro, o heptacampeão levou as mãos para a região da coluna, deixando claro o seu incômodo.

 

Lewis Hamilton deixando o carro com dificuldade/ Foto: Reprodução/ Marca

 

A razão para as dores do heptacampeão foi a corriqueira pedra no sapato da Mercedes: o porpoising do carro. Nenhuma equipe sofreu e sofre tanto com os quiques como a escuderia alemã sofre. O circuito de rua em Baku tem longas retas e curvas que exigem muito dos freios, características potencializadoras dos pulos das flechas prateadas. Após as 51 voltas da corrida, Hamilton estava esgotado – e arrebentado.

Pois bem, Toto Wolff – diretor-executivo da Mercedes – colocou em xeque a presença do seu principal piloto na corrida seguinte e pediu à FIA uma solução para o problema. O que se falava no paddock era de uma possível volta da suspensão ativa, equipamento banido da F1 que ficou consagrado pelas Williams de outro planeta das temporadas de 1992 e 1993. De qualquer forma, esperava-se uma ação firme da entidade máxima da categoria para dar um jeito nos quiques – e que por tabela beneficiasse a Mercedes.

Não foi o caso. A FIA emitiu um comunicado sobre o assunto dando a entender que as equipes afetadas pelo porpoising terão de fazer ajustes necessários no carro para eliminar o fenômeno por questões de segurança. Também estabeleceu uma nova diretriz técnica para fiscalizar o desgaste na prancha que fica embaixo do assoalho dos carros. Em resumo: as escuderias atingidas pelo problema do porpoising precisam se virar com o que têm e não haverá modificação alguma no regulamento para facilitar tal empreitada.

Mais do que isso: em nome da segurança dos pilotos, as equipes que precisam realizar modificações para atender aos novos ditames da FIA provavelmente terão que sacrificar potência e desempenho dos seus carros. Quem não sofre com os quiques fica como está, sendo dispensada qualquer alteração – caso da McLaren, que elevou a altura do MCL36 para não sofrer com o porpoising.

Péssima notícia para Toto Wolff, pois a sua tentativa de aliviar a barra da Mercedes através de uma mãozinha da FIA falhou miseravelmente. Ele não irá admitir a intenção, mas com qual objetivo um chefe de equipe alerta para o problema do seu próprio time e logo depois apela para a entidade responsável pelas regras do jogo?

O mundo inteiro sabe dos problemas da Mercedes e como o W13 já nasceu problemático. Ao arriscar muito em um conceito ousado, a equipe alemã sabia dos riscos, e um deles era justamente o porpoising. Na pré-temporada em Barcelona, deu para perceber o carro quicando um bocado, principalmente o de Lewis Hamilton. Tal situação não constitui novidade alguma.

A equipe oito vezes campeã de construtores, principal time da era híbrida, escuderia que possibilitou a Lewis Hamilton colocar seu nome entre os maiores da história e com corpo técnico altamente qualificado também falha. Mas essa mesma equipe tem totais condições para realizar um bom diagnóstico e entender o que deu errado no W13 para corrigir o porpoising. Sem virada de mesa ou ajuda da FIA.

Todas as escuderias sofrem em alguma medida com os quiques, com exceção da Red Bull. A equipe austríaca acertou em cheio no desenvolvimento do RB18, entregando a Max Verstappen e a Sérgio Perez um carro veloz, equilibrado e com porpoising desprezível. Os taurinos têm Adrian Newey, o mago da aerodinâmica. Se Verstappen está com a faca e o queijo na mão para conquistar o bicampeonato – situação de agora, tudo pode mudar – e estabelecer uma hegemonia da RBR, tem muito a agradecer ao gênio Newey.

Se a FIA mudasse as regras do jogo e nivelasse por baixo o campeonato, estaria cometendo uma injustiça com quem foi competente no desenvolvimento do próprio carro. Alguns fãs da categoria costumam tachar a Red Bull de chorona, Christian Horner de reclamão e Max Verstappen de mimado. Nesse caso, ambos teriam total razão em suas objeções. As outras equipes podem alterar seus carros dentro das normas – os pacotes de atualizações estão aí para isso. Alterar o regulamento com a carruagem andando seria lamentável.

Como amante do automobilismo e fã assíduo da F1, torço sinceramente pela eliminação do porpoising em todos os carros. Pela saúde dos pilotos, que são mais do que simples condutores. E também pelo espetáculo, pois haveria um equilíbrio maior com o fim de tal fenômeno. Hegemonias de qualquer equipe sempre provocam um distanciamento dos fãs da categoria. Se a Red Bull sobrar sob o guarda-chuva do atual regulamento, não será diferente.

Equilíbrio e disputas francas são sempre bem-vindas, desde que sejam justas. A atitude da FIA correta ao pensar no bem-estar dos pilotos sem prejudicar quem foi competente para entregar um bom carro. Se a Mercedes queria algo diferente disso – é difícil imaginar o contrário – em benefício próprio, tomou um banho de água fria. O tiro de Toto Wolff saiu pela culatra.

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