24h de Le Mans
Híbrido, porém não como se esperava: A história do Courage/Pescarolo C60 Hybrid
Com a busca da maior eficiência energética possível, é normal as montadoras entrarem carros com unidades de potência híbridas em diversas categorias atualmente, com um motor a combustão e um outro motor elétrico com uma bateria que utiliza algum método de regeneração de energia, como a regeneração de energia cinética dos freios dos dias atuais ou uma flywheel como o Nissan GT-R LM Nismo planejava usar, porém não foi pra frente por ser um sistema bem mais complexo.
Porém, a história de carros híbridos é datada antes mesmo da primeira guerra mundial, com Ferdinand Porsche desenvolvendo um carro movido a gasolina e eletricidade no distante ano de 1900.
No automobilismo, o primeiro carro a possuir um sistema híbrido foi o simpático Panoz Q9 apelidado de Sparky no ano de 1998, antes mesmo da Fórmula 1 e dos protótipos LMP1! Ele foi feito em um esforço conjunto da Panoz com a Zytek, que desenvolveu um motor elétrico para trabalhar ao lado do V8 Ford desenvolvido pela Roush Racing que o Panoz Esperante GTR-1 possuía.

Foto: John Brooks
Sparky foi um pioneiro, genando energia durante a frenagem para recarregar suas duas baterias e injetando essa potência extra no sistema via um motor elétrico junto ao motor a combustão, gerando 130 cv de potência adicionais, totalizando 800 cv de potência junto ao motor a combustão.
Porém a tecnologia da época fez com que as baterias adicionassem 300 kg ao já não tão leve Esperante GTR-1. O projeto incluía uma tentativa de se classificar para as 24 Horas de Le Mans, porém, durante os testes de classificação, Sparky foi 16 segundos mais lento que o tempo mais rápido dos GT1 e 12 segundos mais lento que o Panoz mais lento, logo, o sonho de Le Mans foi abandonado.
Sparky ainda sim fez história na Petit Le Mans daquele ano, competindo e terminando no 12° lugar, sendo assim o primeiro carro híbrido da história a iniciar e terminar uma corrida.
O sonho de um carro híbrido em Le Mans parecia distante, mas uma equipe privada talvez tornaria o sonho realidade: o Courage/Pescarolo C60 Hybrid.

Foto: Wouter Melissen
O carro é a evolução do protótipo da Courage projetado por Paolo Catone originalmente e desenvolvido posteriormente por André de Cortanze, o C60 foi desenvolvido para o regulamento dos LMP900, a categoria principal dos protótipos na época.
Tanto o C60 quanto o C60 Evo obtiveram resultados respeitosos incluindo algumas vitórias, muito bons considerando que os R8 da Audi dominavam o cenário dos protótipos no início dos anos 2000. Buscando um boost em performance, a marca desenvolveu alguns upgrades para o C60 Evo, assim gerando o C60 Hybrid.
Havia um grande porém: ele não possuía um sistema híbrido.
Não, o Hybrid em seu nome não significava unidade de potência híbrida, já que seu motor era um Judd V10. O Hybrid em seu nome significava que o carro estava em uma transição entre dois regulamentos. No ano de 2004, a Automobile Club L’Ouest (ACO) introduziu o regulamento LMP1, que foi a junção do regulamento dos LMP900 e dos LMGTP, pelo fato de ambos regulamentos serem bastante similares um ao outro e também para permitir que a categoria principal das 24 Horas de Le Mans tenha mais participantes.
Assim, a Courage ficou um um dilema de ter que desenvolver um carro totalmente novo para continuar competindo, mas a ACO jogou deu uma colher de açúcar enorme para o C60 e os outros LMP900: eles poderiam continuar competindo até 2006.
Logo, a equipe começou a trabalhar em cima de seu protótipo para “adaptá-lo” ao regulamento novo, tornando o C60 uma mescla, ou melhor, um híbrido entre o regulamento velho dos LMP900 e o regulamento novo dos LMP1.
O C60 Hybrid foi o carro com mais sucesso da linhagem, sendo pole na sua estreia em Le Mans e chegando na segunda posição, somente atrás da Audi R8 de Tom Kristensen. Além desse bom resultado, o carro ainda conseguiu uma vitória nos 1000 Km de Istambul no mesmo ano de 2005.

Foto: Woulter Melissen
2006 foi o ano mais condecorado do C60 Hybrid, com vitórias em Istambul, Spa-Francorchamps, Nurburgring, Donington Park e Jarama. A vitória em Spa foi uma das mais especiais, com o carro começando a corrida do pit-lane após um acidente nos treinos livres, indo do fundão a glória em 1000 Km.
No mesmo ano, os dois carros da Pescarolo iniciaram as 24 horas de Le Mans na segunda fila, somente atrás dos novíssimos Audi R10 TDI, com o carro 17 da equipe privada pilotado por Sébastien Loeb, Franck Montagny e Éric Hélary terminando a frente de um dos Audi ao final das 24 horas.
O C60 teve aparições em vídeo games também, como em Gran Turismo 4, onde o protótipo francês pode ser um oponente no Gran Turismo World Championship.
E assim terminou a vida útil do pequeno grande C60, sendo substituído pelo Pescarolo 01 já em 2007 e Le Mans teve seu primeiro híbrido de fato em 2011 com a Hope Racing, que utilizou um chassis da Oreca e motor de 4 cilindros com KERS da Swiss Hy Tech.

Foto: Alastair Staley
Após a Hope, tivemos Audi trazendo os motores híbridos para Le Mans em 2012, com o R18 e-Tron Quattro vencendo a prova, a primeira vitória para os híbridos, e a Toyota com seu TS030 fazendo sua estreia em Le Mans e vencendo 3 das 5 provas que participaram naquela temporada.

Foto: Audi Communications Motorsport
Mesmo que ele tenha sido ofuscado pelos Audi de outro mundo, o C60 Hybrid foi um carro que mostrou ser muito competitivo para um projeto de uma equipe privada e que gerou uma das “publicidades enganosas” mais curiosas do automobilismo.
