GT
Fazendo história: como o GT3 começou com tudo em 2006
Existem momentos na história em que os envolvidos sabem que estão testemunhando algo importante. Na maioria das vezes, porém, a real dimensão desses acontecimentos só fica clara com o passar do tempo.
Este segundo caso descreve melhor a etapa inaugural do Campeonato Europeu FIA GT3, realizada em Silverstone nos dias 6 e 7 de maio de 2006. Para a maioria dos observadores, parecia apenas o lançamento de mais uma categoria GT. Poucos — ou ninguém — sabiam que estavam presentes no nascimento de um fenômeno global do automobilismo.
Um homem que talvez tivesse essa noção era Stéphane Ratel, cujo grupo SRO organizava o FIA GT Championship e lideraria o desenvolvimento do GT3. A motivação era dupla: conter o aumento dos custos e atender melhor aos pilotos amadores, que eram — e continuam sendo — a base das corridas GT.
“O custo do GT2 havia se tornado insustentável e a categoria estava dominada por dois fabricantes”, explica Ratel. “Havia muito interesse de equipes e preparadores, o que nos convenceu a lançar uma série independente em vez de integrar o GT3 como uma classe dentro do FIA GT Championship.
“Ao mesmo tempo, introduzimos características como o formato sprint com duas corridas de uma hora, com dois pilotos por carro — algo inspirado no Lamborghini Super Trofeo. Então já tínhamos a sensação de que poderia dar certo.”
Entre as principais inovações, o GT3 utilizava modelos de carros já existentes, reduzindo significativamente os custos para os fabricantes, além de contar com o Balance of Performance (BoP) para equilibrar o desempenho. Ratel levou o conceito à FIA e recebeu total apoio do então presidente Max Mosley.
Em dezembro de 2005, foi realizado um evento de lançamento em Monte Carlo e, menos de seis meses depois, aconteceu a primeira corrida exclusiva para carros GT3 em Silverstone, durante o evento Supercar Showdown. Com o FIA GT Championship como atração principal, o fim de semana também contou com corridas de apoio da Ferrari Challenge e do Maserati Trofeo, reunindo cerca de 150 carros GT.
Entre as equipes que aderiram à primeira temporada estava a Barwell Motorsport, que segue ativa até hoje na categoria. O chefe da equipe, Mark Lemmer, relembra:
“Ao contrário de praticamente qualquer outra categoria nova, essa era única por conta da exigência de seis carros por fabricante. Tivemos quase 50 carros no grid da primeira corrida — foi algo impressionante.”
O grid final teve 44 carros e oito fabricantes. Aston Martin (DBRS9), Corvette (Z06), Ferrari (430 Challenge), Lamborghini (Gallardo) e Porsche (997 GT3 Cup) continuam ativos até hoje, enquanto Ascari, Dodge e Maserati também fizeram parte do lançamento.
Entre os inscritos da Ferrari estavam Hector Lester e Allan Simonsen, nomes conhecidos do British GT, junto com o engenheiro John Buchan, correndo pela equipe JMB Racing.
“JMB tinha dois carros e precisava de um terceiro. Stéphane sugeriu que conversássemos. Nos encontramos em um teste em Dijon e seguimos em frente. Depois, só voltamos a vê-los em Silverstone”, conta Buchan.
“Preparei o carro na Escócia e o levamos já convertido para GT3 — basicamente com mudanças no para-choque, splitter e asa traseira. E funcionou: Allan colocou o carro na primeira fila.”
Um detalhe importante sobre os pilotos: seria como ver hoje um Max Verstappen correndo de GT3 — algo comparável a Michael Schumacher correndo de GT há duas décadas. Mas Schumacher não poderia competir no FIA GT3. A categoria restringia pilotos profissionais, sendo focada em amadores, com alguns jovens talentos como Simonsen e o futuro campeão Sean Edwards.
“Era claramente voltado para os ‘gentleman drivers’”, explica Ratel. “Criamos regras para limitar experiência e habilidade, excluindo pilotos oficiais e aqueles com forte histórico em monopostos.”
Uma exceção foi o tricampeão de Le Mans Klaus Ludwig, aceito por conta da idade. Aos 56 anos, ele mostrou que ainda era rápido ao conquistar a pole position da primeira corrida.
A primeira prova começou sob chuva, e Lester — que largou no Ferrari — rodou ainda na primeira volta após um incidente. Dois Dodge Viper dominaram o início, mas a corrida mudou quando a pista começou a secar.
Simonsen, que assumiu o carro na segunda metade, apostou em pneus slick mesmo com a pista ainda úmida.
“No começo parecia arriscado, mas depois ele simplesmente assumiu a liderança”, relembra Buchan.
Com os pneus atingindo a temperatura ideal e a pista secando, Simonsen virou até 10 segundos mais rápido por volta do que os líderes. Ultrapassando vários carros por volta, ele assumiu a ponta na penúltima volta e venceu a primeira corrida da história do GT3.
“Eu estava passando quatro ou cinco carros por volta, foi incrível!”, disse Simonsen depois. “Esse campeonato é fantástico — quem imaginaria 44 carros na primeira etapa?”
No domingo, a segunda corrida foi disputada sob chuva constante. Simonsen largou em 16º e assumiu a liderança já na quarta volta. Lester estava na frente na última volta, mas foi prejudicado por um Corvette mais lento e perdeu a vitória para Andrea Ceccato, que venceu de Viper.
Com um grid cheio e duas corridas decididas na última volta, o evento foi um grande sucesso — embora ainda houvesse ajustes a serem feitos.
“A Prodrive subestimou o que o carro precisava. Usávamos câmbio manual em H e porcas de roda convencionais”, lembra Lemmer. “Rapidamente perceberam que não era suficiente e, na corrida seguinte, já tínhamos câmbio sequencial e cubo central.”
Apesar do sucesso inicial, não era óbvio que aquele seria o futuro das corridas de GT. O FIA GT3 era pensado como uma categoria voltada a amadores, com equipes tendo papel mais importante que fabricantes.
Mas, como se diz hoje, o GT3 estava apenas começando sua jornada.
Os elementos que o tornaram popular desde o início — especialmente o equilíbrio entre diferentes fabricantes — o transformaram em algo cada vez mais atrativo. Duas décadas depois, ele não apenas domina o automobilismo GT: ele o define.
Imagens: Jakob Ebrey Photography
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