Fórmula 1
Segunda Bandeirada #38: Os livros de história vão contar…
Muito antes daquele fatídico dia em que a Fórmula 1 presenciou a maior e mais impactante transferência nos seus 74 anos, cravei com certo grau de certeza: Lewis Hamilton sairia da Mercedes. Os sinais não eram tão óbvios para um fã comum, mas evidentes para quem está nesse meio há algum tempo – embora a minha experiência como jornalista especializado em automobilismo seja do tamanho de Yuki Tsunoda.
O novo lar de Hamilton era um mistério para mim. Ir para a Ferrari e realizar o sonho de praticamente qualquer piloto de corrida? Voltar ao antigo lar e ajudar na reconstrução da McLaren? Pensei nisso quando ele olhou para o carro laranja após o Grande Prêmio do Reino Unido – aquele olhar parecia um misto de nostalgia com surpresa pelo ótimo desempenho do time papaia. Enfim, as possibilidades não eram pequenas.
Pois bem, o fato consumado naquele primeiro de fevereiro de 2024 simbolizou o fim da parceria mais vitoriosa da história da F1. Um casamento que começou desacreditado por muita gente, rendeu frutos de forma rápida, elevou Hamilton ao panteão dos semideuses do volante e fez dele um ídolo para milhões de fãs no mundo inteiro. O desgaste foi natural e inevitável, mas os doze anos de união serão lembrados em cada capítulo realizado.
Hamilton chegou a Mercedes em 2013. Na época, foi tachado de louco: como alguém em sã consciência largaria a McLaren e embarcaria numa equipe com resultados medianos? As flechas prateadas voltaram à F1 como equipe em 2010 e tinham uma única vitória em três temporadas – Nico Rosberg no GP da China de 2012. O time alemão tirou Michael Schumacher da aposentadoria e deu ao heptacampeão a responsabilidade de liderar o audacioso projeto da escuderia – além de Schumacher finalmente pagar a dívida de gratidão com quem foi responsável pelo seu inesperado desembarque na F1.
Não foi a escolha óbvia, tampouco a mais fácil. Porém, Lewis sabia o que estava fazendo: a Mercedes dominava como ninguém a tecnologia híbrida. Os motores aspirados dariam adeus à F1 em detrimento aos turbos híbridos em 2014, e o time alemão teria uma vantagem considerável. Além disso, Toto Wolff chegaria para liderar a equipe, batendo na tecla do aumento de gastos por parte dos alemães ser condição sine qua non para o sucesso nas pistas. Mas coube a Niki Lauda seduzir o britânico e convencê-lo definitivamente acerca da sua escolha. Com tudo isso e a opinião de uma lenda como Niki, ele topou o desafio.
Nesses doze anos, Hamilton venceu seis campeonatos, ganhou 84 corridas, cravou 78 poles e subiu ao pódio 153 vezes. Foram tantas façanhas que comentar uma por uma demandaria não apenas um texto e o espaço é curto para tal empreendimento. De um campeão muitas vezes contestado e até mesmo colocado em xeque por ele mesmo, Lewis virou o patrono da F1.
Vários capítulos são marcantes, mas comentarei dois específicos que atestam a genialidade de Lewis Hamilton: GP do Reino Unido 2020 e GP da Rússia 2021. Na primeira ocasião, uma corrida perfeita que poderia ter ido para o vinagre após um furo de pneu na última volta. Hamilton teve a cabeça no lugar e a genialidade corriqueira para andar parte do segundo setor e o terceiro completo com três pneus para empunhar uma vitória impressionante. Já a segunda foi marcada por algo que sempre falo: Lewis é o piloto mais cerebral da história. Com slicks em plena chuva, atendeu o chamado da equipe ao perceber que guiar naquelas condições sem intermediários seria impossível. Venceu pela centésima vez e tornou-se o único piloto na história a chegar nos três dígitos dessa marca.
O casamento entre o multicampeão britânico e a equipe alemã – que ironia, não? – começou a ir mal em 2022, quando a Mercedes errou a mão no carro. Com o W13, foram dados todos os sinais que o time não compreendeu bem o novo regulamento aerodinâmico e sofreria bastante nos anos seguintes. Desde a estrela perdida para Max Verstappen um ano antes, Hamilton não voltou a lutar pelo título e só voltou a vencer na atual temporada. Piloto bom quer carro bom. Ainda mais um multicampeão no auge e com pouco tempo pela frente.
Ao escrever este artigo, escutava We Are All Made of Stars e o refrão prendeu a minha atenção. ‘’As pessoas se reúnem/as pessoas se separam/ninguém pode nos parar agora/porque nós somos feitos de estrelas’’. No fim, Moby tem razão na música e as coisas na vida funcionam assim. A união com a Mercedes foi feita e desfeita, mas a história foi escrita. Os livros contarão. E Lewis Hamilton tem estrela mesmo. Seja no carro prateado ou preto, ele fez o seu nome entrar no grupo dos maiores esportistas de todos os tempos.
