Fórmula 1
Segunda Bandeirada #33: Reafirmações em grau superlativo
O passeio de Lando Norris em Singapura foi homérico. Em momento algum a sua vitória foi ameaçada, nem mesmo na largada – seu terror de outrora. Além disso, o triunfo no estreito circuito de Marina Bay reafirmou três coisas: (I) Norris é o melhor piloto da McLaren, (II) a Red Bull não vencerá novamente a não ser por um milagre e (III) caso seja campeão, Max Verstappen terá praticamente 100% de mérito nisso. Passamos, pois, a cada caso.
Produzir conteúdo sobre Fórmula 1 parece não ser o mais hercúleo dos trabalhos. Digo isso porque é mainstream falar que Piastri é melhor que Norris com base apenas em sensações imediatas sem os dados e o que se vê dentro das pistas. Nada contra os influencers, óbvio, pois os maiores propagadores dessa sandice referente ao time papaia são autodenominados jornalistas que se acham donos da verdade por terem um crachá e uma coluna num blog grande. Vivem arrotando uma superioridade imerecida, fruto de uma arrogância ridícula.
Fato – ou quase desabafo – exposto, falo finalmente de Norris. Largou na frente, andou forte e manteve uma confortável diferença de vinte segundos para Verstappen. Cometeu dois erros, mas ambos compreensíveis: quem não faria o mesmo guiando um foguete com tanta vantagem para o segundo colocado? Verstappen não fez algo parecido numa corrida no Canadá? Alguém jogou pedras no tricampeão e colocou em xeque seu talento? Façam-me rir. A eternidade de tempo colocada para o resto do grid fala por si.
Peguem a corrida que Piastri fez e comparem. ‘’Ah, mas ele largou em quinto’’. Sim, a classificação também é relevante e serve de parâmetro para comparar dois pilotos. Norris colocou quatro décimos nele com o mesmo carro. Além disso, comparem as vitórias de ambos: Piastri venceu na Hungria com ordem de equipe e no Azerbaijão suando sangue para segurar Leclerc. Norris venceu em Miami, Zandvoort e Singapura sem grandes sustos com totais méritos. Não que o australiano seja ruim ou algo do tipo, mas não parece haver dúvidas no mundo real acerca de quem é o melhor piloto da equipe papaia.
Se na McLaren tudo é festa, na Red Bull nada resta. Quem assistiu a estreia no Bahrein e largou a F1 até ontem simplesmente não acredita que estou falando da mesma equipe. O carro azeitado e obediente aos comandos dos seus pilotos virou a máquina errática que sai de frente e de traseira em todas as pistas. O vareio aplicado por Norris em Verstappen está longe de ser a prova mais real do presente estado de coisas: foi o rádio de Sergio Pérez expressando a dificuldade em ultrapassar Franco Colapinto que esclareceu tudo. Um rookie guiando uma Williams – a pior equipe do grid há dias atrás – coloca um taurino em apuros.
A pausa de quase um mês será vital para a Red Bull tentar encontrar um caminho. Não há melhor definição possível, pois a sensação é de que todos em Milton Keynes estão absolutamente perdidos. Situação similar enfrentada pela Mercedes no começo deste regulamento, quando o seu errático W13 era uma incógnita em performance com porpoising de brinde. Uma diferença de 21s é uma vida na F1. Ainda que os taurinos consigam uma melhora no RB20 e a McLaren sofra com a mudança na asa dianteira do seu MCL38, creio ser muito difícil uma reversão desse quadro até o fim da temporada. Só por milagre o time austríaco voltará a vencer. Verstappen já operou alguns, mas tudo tem limite.
Tudo isso embola um campeonato tido como decidido. Norris tem uma montanha para escalar e a matemática é fria e cruel ao atestar que Verstappen não necessita mais de uma vitória para ficar com o tetracampeonato. O holandês ainda é favorito e eu apostaria todo o meu dinheiro nele, mas no automobilismo as coisas só acabam com a bandeira quadriculada. As duas vitórias mais recentes do britânico foram dois verdadeiros passeios e acendem todos os sinais de alerta.
Seja quem for o campeão, estaremos diante da história. Se Norris virar o jogo, será a remontada mais impressionante de todos os tempos – além do surgimento de um campeão inédito. Se Verstappen manter a dianteira e adicionar mais um dourado na sua vitoriosa carreira, contará com a companhia de Alain Prost e Sebastian Vettel no grupo dos tetracampeões. Não só: será apenas o segundo piloto na história da F1 a conquistar dois títulos com uma equipe que não vence o mundial de construtores – até agora, só Nelson Piquet conseguiu tal façanha. Isso só mostra que a conquista seria por mérito quase exclusivo dele.
Enfim, apenas conjecturas. Mas a corrida de ontem confirmou os três supracitados fatos em grau superlativo.
Nas outras cinco poles anteriores, Lando Norris nunca havia concluído a primeira volta na liderança.
O Grande Prêmio de Singapura continua sendo o único circuito do calendário que Max Verstappen jamais venceu.
