Fórmula 1
Segunda Bandeirada #27: Como será?
Perambulando por este infinito mundo digital chamado Instagram, vi uma das milhares de edições com a famosa coletiva de Michael Schumacher após o Grande Prêmio da Itália de 2000. Após vencer em Monza – para o delírio insano dos ferraristas – e pavimentar os caminhos para o tão sonhado tricampeonato e o primeiro título vestindo o vermelho da Ferrari, ele chorou. As lágrimas caíram ao ser lembrado por um repórter que o triunfo era o 41° de sua carreira e que acabara de igualar Ayrton Senna.
Como vocês devem saber, Schumacher foi testemunha ocular do acidente que vitimou Senna na fatídica Tamburello. Era o piloto que vinha logo atrás. Além disso, ele nunca escondeu a admiração por quem é tido como ídolo de muitos – inclusive dele próprio. O choro incontido não veio por acaso. Ao contrário do senso comum propalado por seus inúmeros detratores, foi absolutamente verdadeiro. E continua a ser uma das cenas mais impactantes – e emocionantes – da história da Fórmula 1.
Pois bem, pensei em inúmeros momentos semelhantes na trajetória desta categoria feita por heróis, tragédias e glórias incomparáveis. Porém, veio a pergunta: como reagiria algum piloto ao alcançar as 91 vitórias de Schumacher?
Isso já aconteceu com Lewis Hamilton. Ao igualar Michael, ele recebeu um capacete do alemão dado de presente pela família Schumacher. Ao destacar sua infância com as lembranças das vitórias do também heptacampeão, disse ser uma honra igualar o alemão. Sem lágrimas, mas com máximo respeito e a reverência digna dos grandes campeões. Se o GP de Eifel de 2020 foi modorrento, restou ao menos a simbiose momentânea dos dois patronos da F1 como lembrança a ser eternizada.
Abaixo de ambos no número de vitórias, vem Max Verstappen. Ele é quem pode alcançar Schumacher num futuro próximo. Pois bem, além de introspectivo como o alemão, ele é odiado pelo público que também detestava o heptacampeão – os motivos são os mais estapafúrdios possíveis, mas a inveja se sobressai, é claro. Todos os fãs devem conhecer aquele vídeo em que um Verstappen menino aparece diante de Schumacher e recebe um afago dele, além da foto de Michael com a sua filha e ele no colo.
Ainda que não se declare fã de algum piloto do presente ou do passado, Verstappen citou primeiramente Schumacher ao fazer a sua lista dos cinco melhores da história. E tem como ser diferente? Ele dominou a F1 de 2000 a 2004, além de protagonizar disputas incríveis nos anos 1990 com seus antagonistas – principalmente com Mika Hakkinen. Colocou a mediana Benetton no topo, reergueu a Ferrari do seu marasmo de décadas e dinamitou as marcas dos rivais. Grande parte dos seus maiores feitos aconteceram quando Verstappen era criança, com seu pai Jos correndo na categoria.
Se ele pode ter algo próximo a idolatria a algum piloto, esse piloto é Schumacher.
Verstappen estreou na F1 em 2015. Posso dizer que acompanhei todas as suas corridas, sua evolução incrível e a transformação do piloto errático com cara de adolescente na Toro Rosso até o tricampeão indomável como o leão do seu capacete na Red Bull. Que eu me lembre, ele só chorou uma vez: GP dos EUA 2022, morte de Dietrich Mateschitz, fundador da Red Bull e responsável pela entrada da empresa na categoria. Um choro contido, sem estardalhaço, algo bem próprio do holandês. Mas foi uma demonstração clara de que ele não é uma máquina e até os mais introspectivos também choram.
Caso ele chegue na marca de Schumacher, não tenho certeza acerca da sua reação. Como será? Choro, palavras elogiosas sem nada mais ou algo fora do roteiro esperado? Não sei. Infelizmente, não sei nem mesmo se Schumacher estará vivo até lá, pois a vida do heptacampeão é um intrigante mistério após o trágico acidente em 2013. Compreende-se a postura da família, pois ele merece aproveitar o resto dos seus dias com a merecida privacidade, além de poupar os verdadeiros fãs pela mera curiosidade dos urubus em formato humano, ansiosos para saber como o alemão ficou.
Que Verstappen tenha sucesso na carreira para quebrar esse e outros recordes. Ele é um grande campeão e absolutamente merecedor das suas conquistas. Que Schumacher tenha paz, esteja como estiver. E quando aquele menino que segurou no colo alcançar sua marca, lembre-se dele. Pois o maior de todos faz falta. Muita falta.
Foto: si.com
