Fórmula 1
O dilema de Daniel Ricciardo
A Fórmula 1 está em Monza – o santuário do automobilismo mundial. Não conheço deste apaixonante esporte que não goste dos seus 5793 metros, das suas retas de velocidade pura, enfim, da sua mística enorme. Uma corrida em Monza nunca é um evento qualquer. Sempre nos reserva algumas surpresas.
Sobre o campeonato, não há muito o que falar. Max Verstappen faz uma temporada irretocável e caminha tranquilo para o bicampeonato. Vencer ou não no domingo é detalhe, mero detalhe. A disputa pelo título ainda existe na matemática, mas no mundo real já acabou faz tempo. É de Verstappen e ninguém tira.
Mas, como disse antes, Monza sempre nos reserva surpresas. Uma delas foi protagonizada por um dos pilotos do grid atual que vive uma situação no mínimo curiosa. Daniel Ricciardo venceu o GP da Itália de 2021 em uma dobradinha improvável da McLaren com o seu companheiro Lando Norris em segundo. Foi um raro momento de felicidade na união entre o piloto australiano e a equipe britânica. Ele não conseguiu entregar os resultados esperados, andou sempre atrás do seu colega de time e dará lugar ao jovem Oscar Piastri para a próxima temporada. Ninguém sabe o futuro de Ricciardo na F1 – nem mesmo se haverá um.
O próprio Ricciardo não tem a menor noção do que virá pela frente. Ele tem 33 anos, não é mais um garoto, já andou em uma equipe de ponta como a Red Bull e fracassou na sua passagem pela tradicional McLaren. Vale mesmo a pena guiar em uma Haas ou Williams da vida apenas para continuar no grid?
Enfim, é um questionamento pertinente. Mas, voltando a Monza, aquela corrida foi fora do normal. Começou na largada, quando Ricciardo pulou na frente e deixou o futuro campeão Verstappen para trás. O MCL35 era um carro decente, mas longe de fazer frente aos foguetes da Red Bull e da Mercedes. Esperava-se uma ultrapassagem fácil de Verstappen ao decorrer da corrida, o que não aconteceu. Era o indício de algo atípico.
Verstappen parou, Hamilton fez o mesmo pouco depois. E quando o heptacampeão voltou à pista, saiu batendo roda com seu adversário na luta pelo título. Em um dos momentos que a rivalidade entre ambos aflorou da maneira mais intensa possível, uma tentativa afobada de ultrapassagem por Verstappen resultou em um abandono duplo – e naquela imagem impressionante do RB18 encavalado no W12. Ninguém tirou o pé na variante del Rettifilo, mas o holandês foi mais culpado nessa história.
Com os dois favoritos fora, a McLaren tinha condições de vencer a corrida. E coube a Daniel Ricciardo levar a escuderia britânica ao lugar mais alto do pódio após nove temporadas – a última vitória havia sido em 2012 no Brasil com Jenson Button. Muito se fala do peso histórico da Ferrari, da paixão dos tifosi e da mística em torno da escuderia italiana. A McLaren também é uma equipe tradicional. É a equipe de Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Alain Prost, Ayrton Senna, Mika Hakkinen e Lewis Hamilton. Não é qualquer time.
Vencer um Grande Prêmio de Fórmula 1 é um feito que jamais se esquece. Se a vitória for por uma equipe tradicional, aí a coisa toma uma proporção maior. Gostando ou não, Daniel Ricciardo entrou no seleto grupo de pilotos que colocaram a McLaren no lugar mais alto do pódio. É uma façanha para guardar com carinho.
Foi um brilho singular na sua trajetória pela escuderia britânica. Ele penou para entender o carro e teve como companheiro um jovem absurdamente talentoso. Lando Norris não colocou tempo e chegou na frente de Ricciardo por acaso. É um piloto promissor, joia rara ainda em lapidação, mas com potencial enorme. Mesmo sem vitória pela equipe – andou muito perto no GP da Rússia de 2021 – e com muito o que provar, levou mais pontos para a firma. Uma empresa funciona desta maneira, meus caros: não entregou resultado, é rua.
Que o simpático australiano consiga fazer uma boa corrida e arranje um lugar decente para continuar na F1. É difícil, mas nunca se sabe o amanhã. Daniel Ricciardo tem oito vitórias no currículo, mais alguns de carreira e experiência para dar e vender – literalmente. Se fui bastante duro com ele a ponto de chamá-lo de Alesi 2.0, perdoem-me. Ricciardo é um bom piloto, mesmo em uma fase ruim. É ter sabedoria e tomar a melhor decisão para o seu futuro.
