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Fórmula 1

Há vinte anos, a consagração inconteste do maior de todos

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Em um 21 de julho, em Magny-Cours, Michael Schumacher vencia o GP da França e conquistava o seu quinto título mundial de Fórmula 1. Ali, o alemão da Ferrari colocava mais um feito em sua brilhante trajetória ao empatar com Juan Manuel Fangio em número de conquistas – com o adicional da superioridade nas estatísticas. Era a história sendo escrita.

Ainda faltavam seis corridas para o final do campeonato, mas Schumacher obteve a combinação necessária para sair da França já como campeão. Se a Ferrari entregou um foguete de carro ao alemão, ele tratou de mostrar na pista quem era o mais rápido. Em uma temporada de 17 corridas, Schumacher venceu 11 e foi ao pódio em todas elas – feito inédito e nunca repetido. A ‘’pior’’ colocação foi um terceiro lugar na Malásia – e foi só. De resto, sempre em primeiro ou segundo.

E antes que alguém pergunte, sim, foi aquele campeonato em que a Ferrari protagonizou aquela bizarrice imperdoável na Áustria. Mandar Rubens Barrichello entregar a vitória sem necessidade alguma foi uma das maiores vergonhas da história da F1. Não há dúvidas acerca da antipatia gerada a Schumacher e ao próprio time de Maranello por tal episódio lamentável.

Tive de lembrar de tal fato pela simbologia em torno dele. Muitos brasileiros gostam de recordá-lo para embasar a narrativa de que Schumacher só conquistou suas façanhas por ter um Barrichello acovardado e uma Ferrari que o cercava de mimos. Como o esporte envolve paixão e o brasileiro costuma ser mais passional ainda quando o assunto é F1, tal história da carochinha impregnou como chiclete na mente de vários. E claro, o coitado do alemão passou para a posteridade nacional como vilão de gibi, monstro insensível cujo métier era humilhar nosso compatriota.

Tal narrativa é falsa. Rubinho andou bem na Ferrari, mas abaixo de Schumacher pelo simples fato do alemão ser melhor e mais rápido. Qual o interesse da equipe em ferrar com um dos seus pilotos, se o outro andava na frente o tempo inteiro por méritos próprios? Antes de desembarcar em Maranello, Schumacher era bicampeão do mundo. Conquistou dois títulos na Benetton, equipe mediana que só sentiu o doce sabor da glória máxima com ele.

Aliás, se alguém fez por merecer os supostos benefícios da equipe em detrimento a outro piloto, esse alguém era Schumacher. Ele foi para uma Ferrari bagunçada, sem a menor perspectiva de retomar o caminho das vitórias e com um jejum quase interminável de títulos – o último havia sido em 1979. Teve em mãos aquele carro desastroso de 1996, e ainda assim conquistou três vitórias – aquela na Espanha debaixo de muita chuva é uma das melhores performances da carreira. Andou atrás de Williams e McLaren até chegar ao título de 2000. Tudo isso pela vontade de reerguer uma equipe que é bem mais que uma equipe. A Ferrari é algo único sem explicação. E Schumacher conseguiu colocá-la no topo novamente.

Não apenas a Ferrari foi uma antes e depois de Schumacher. A própria F1 também mudou bastante com os seus feitos absurdos. A importância do preparo físico dos pilotos para encarar uma corrida e todos os desafios incluídos nela é um exemplo. Muito se fala da hegemonia de Lewis Hamilton com a poderosíssima Mercedes. Vale lembrar que Schumacher guiou por três temporadas na equipe alemã e foi peça importante no estabelecimento desse predomínio. Quem diz é ninguém menos que Toto Wolff, chefe da escuderia.

Michael Schumacher é o maior piloto de todos os tempos. Ponto. Ter conquistado dois títulos com um time médio, reerguer a escuderia mais tradicional da F1, estabelecer marcas impressionantes e ajudar no estabelecimento de uma nova hegemonia – que fez de Hamilton capaz de superar muitos de seus próprios recordes – não é para qualquer um. Ele não é qualquer um.

Que se danem os pachequistas, mal-amados de plantão, invejosos inconfessos e incapazes de reconhecer o talento alheio. O tamanho de Schumacher independe da cegueira brasileira.

Mas nem todos os brasileiros são cegos. Flávio Gomes, um jornalista que tem a minha admiração, cobriu por anos a categoria e é autor de ‘’Os Anos Schumacher’’, belíssimo livro que retrata em artigos a categoria durante o reinado do alemão. Em uma das suas colunas, ele comenta o pentacampeonato com brilhantismo:

 ‘’Schumacher venceu tudo o que era possível. Poderia colocar um ponto final em sua estupenda carreira quando quisesse, depois do penta. Mas ele parece querer mais. Ótimo. Em queda, a F1 precisa de caras como Schumacher, que desprezam a mediocridade e buscam a perfeição. Ao seu modo, que pode até não agradar a todos. Mas que é admirável, neste novo mundo nem tão admirável assim’’.

O mundo pode não ser mesmo, mas Schumacher era. E continuará sendo, ainda que com o infeliz destino sentenciado em 2013. Sua trajetória é belíssima e recheada de capítulos impressionantes – e igualmente históricos. Como este de vinte anos atrás.

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