Fórmula 1
As ruas do principado se rendem ao novo rei da Fórmula 1
Quando Fernando Alonso cruzou a linha de chegada em sua derradeira tentativa no Q3 após marcar 1min11seg449, a sensação de que ninguém teria condição de tirar a pole position do bicampeão era geral. A Aston Martin tem um carro sabidamente eficaz em curvas e retomadas, característica ideal para um circuito Mônaco. Seria a primeira pole do time verde e de Alonso na sua nova casa.
Seria, pois na Fórmula 1 atual não se pode duvidar de Max Verstappen. Bicampeão como o espanhol, ele vinha tomando dois décimos até o segundo setor e teria de fazer mágica para arrancar a pole no setor 3. Verstappen não só tirou como fez um terceiro setor três décimos mais rápido que Alonso. Foi mágica pura. O carro da Red Bull é bom, mas longe de ser preponderante em Mônaco. Mérito dele.
Por qual razão começar o texto da corrida falando do sábado? Muito simples: as ruas do principado deixam pouquíssima margem para ultrapassar, e quando algum piloto mais afobado tenta desafiá-las sem se importar muito com as consequências, acontece o que aconteceu quando Carlos Sainz tentou uma ultrapassagem impossível em Esteban Ocon. Quem larga na frente tem meio caminho andado para chegar no lugar mais alto do pódio.
Além disso, foi uma pole espetacular, no fio da navalha, com uma pilotagem no limite extremo – com direito a raspadas no muro. Não fosse isso, Alonso largaria em primeiro e a corrida poderia ter sido totalmente diferente. Com um carro mais azeitado para a pista, ele poderia até mesmo calçar os pneus duros, segurar Verstappen e esticar a sua parada. Teria vencido sem grandes sustos. É exagero falar isso? Claro que não, pois mesmo em segundo e com um composto mais lento, Alonso quase venceu.
O quase fica por conta da burrada cometida pela equipe na sua primeira parada. Com a chuva e uma pista escorregadia, a bola de segurança não poderia ser outra que não fosse o pneu intermediário. Se uma lata de sardinha como Mônaco requer cuidados em condições normais, imagine com chuva. Mas a Aston Martin tentou dar o pulo do gato ao colocar o composto médio slick, confiando na capacidade de Alonso em resistir naquelas condições adversas e na interrupção da chuva. Nem uma coisa nem outra: Alonso não resistiu – nem tinha como – e a chuva não parou tão cedo. Teve que colocar o composto intermediário e perder um tempo precioso, o diferencial para a vitória e a segunda posição.
Verstappen, que não tinha nada a ver com isso, rumou tranquilo para a vitória. Penou aqui e ali para manter o carro na pista, mas nada de outro mundo. Fez o que se espera de um piloto como ele. Foi a quarta vitória no ano, segunda em Mônaco, 39° na carreira. O tricampeonato é questão de tempo, conquista que o colocará na prateleira de gente como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Niki Lauda, Jackie Stewart e Jack Brabham. Não é pouca coisa.
A torcida contra Verstappen, que não é pequena nem aqui e nem em lugar algum, sempre vai arranjar uma desculpa para não reconhecer seus méritos. É o eterno só-ganha-por-isso. Só ganha por causa do carro, só ganha por correr contra ninguém, só ganha por ajuda da FIA. Que eu me lembre, Verstappen ganhou onze corridas quando a Red Bull era a segunda ou terceira força do grid, enfrentou grandes campeões como Hamilton, Vettel, Alonso e Raikkonen, e já foi prejudicado por decisões bem questionáveis dos engravatados que comandam o espetáculo.
Se a Aston Martin chega e não aproveita, se a Ferrari andou para trás e se a Mercedes não acerta mais a mão no carro, bom, a culpa não é dele. Sainz e Leclerc foram prejudicados pelas estratégias da equipe, Hamilton e Russell chegaram no limite das possibilidades oferecidas pelo imprevisível W14B. Ocon fez um corridaço, guiou muito e chegou no pódio com uma Alpine em eterno compasso de espera. No mais, destaques negativos para Lance Stroll e Sergio Pérez, que guiam bons carros, mas estão muito aquém de seus respectivos companheiros de equipe. No caso do canadense é ainda pior, pois Alonso carrega praticamente sozinho a Aston Martin no mundial de construtores.
Bons e maus destaques, todos coadjuvantes de luxo perto desse semideus do volante chamado Max Verstappen. As ruas do principado se renderam ao novo rei da F1, que caminha a passos largos para ser o maior da história.
Foto: Reprodução/ Autoracing
