Fórmula 1
Um clubinho fechado
Ninguém é bobo o bastante para não perceber o caráter elitista da Fórmula 1. É o filé mignon do automobilismo mundial, onde rola muita grana e atração de um público altamente seleto. Um dia desses eu conversava com um amigo e ele me disse que a F1 é um esporte de e para playboy rico sem outra vocação na vida – no caso dos pilotos. Tirando a última parte, como posso discordar dele?
Além disso, outra coisa tem chamado atenção sobre a F1. A categoria parece estar virando um clubinho fechado de alguns, uma confraria extremamente corporativista e um lugar pouco arejado. Basta olhar para as recentes especulações acerca da entrada de novos pilotos e novas equipes para elucidar qualquer dúvida.
Vejam, por exemplo, o caso da Haas: Mick Schumacher ainda não renovou com a equipe e a sua vaga corre sério risco. Pois bem, quais os nomes são cogitados caso o jovem alemão não fique na escuderia americana? Nico Hülkenberg e Antonio Giovinazzi. Nada pessoal contra qualquer um desses pilotos, até mostraram algo interessante, mas ambos já tiveram chances suficientes.
O primeiro já disputou 181 corridas e nem sequer conquistou um pódio. Já o último guiou pela Alfa Romeo e sua saída provocou certa indignação nos fãs ao ser substituído por Guanyu Zhou – o chinês é o que se chama de ‘’piloto pagante’’. Pois bem, com um terço do número de GPs disputados, ele conquistou pontos equivalentes aos do italiano com dois fatores que desequilibram a comparação em favor de Zhou: a temporada ainda não acabou e o seu carro tem uma confiabilidade pior que aqueles guiados por Giovinazzi.
Um estreante como Zhou fazer mais que um tarimbado como Giovinazzi em uma equipe do fundo do grid serve para acabar com o mito da experiência valer alguma coisa. Quilômetros na bagagem sem talento não valem nada. Cogitar um piloto como Hülkenberg em 2022 é o cúmulo do absurdo.
A F1 está tão travada que os campeões da F2 encontram uma dificuldade em entrar na categoria que não deveria existir. Nyck de Vries, campeão da categoria em 2019 e da FE em 2021, só conseguiu um assento agora. Ele é da academia de pilotos da Mercedes e guiou em treinos na Aston Martin e na Williams. Nessa última, teve bom desempenho no GP da Itália e chamou atenção das outras equipes, conquistando uma vaga na AlphaTauri para 2023. Em que pese algumas críticas justas a ele, estava mais do que na hora do holandês receber uma chance na F1.
Isso serve de alerta aos brasileiros empolgados com Felipe Drugovich. Ele conquistou o título da F2 com merecimento, é um piloto talentoso e tem totais condições de fazer bonito na F1. Mas o máximo que conseguiu foi um contrato de piloto reserva na Aston Martin. Mais uma prova da dificuldade em adentrar na categoria.
Se a coisa não está fácil para novos pilotos, imagine para escuderias. A Andretti é um exemplo: equipe consagrada na Fórmula Indy, cujo dono foi campeão na própria F1. O desejo de entrar na categoria é antigo, mas um caminhão de dificuldades foi colocado no caminho de Mario Andretti. A principal delas é a questão financeira: mais equipes no grid, menos dinheiro para cada uma delas na divisão dos recursos.
Toto Wolff, chefe da Mercedes, fez pouco caso de uma possível entrada da Andretti. Ora, ninguém é idiota o bastante para não saber da influência política enorme que Toto tem junto à FIA e ao restante das equipes. Não é por acaso que Stefano Domenicali é conhecido pejorativamente como ‘’pau-mandado’’ de Toto – ele é simplesmente o CEO da F1. Uma voz poderosa como a do chefe da equipe mais bem sucedida dos últimos anos tem um peso natural no assunto.
Enquanto outras categorias do automobilismo procuram trazer gente nova e aumentar as equipes, a Fórmula 1 vai remando na direção contrária. É a categoria mais popular do esporte a motor, tem uma história linda e desperta uma paixão incrível nos fãs de todo planeta, mas nem por isso está imune ao ostracismo. Se esse corporativismo insuportável continuar, pode ser a pá de cal que as hegemonias, as trapaças e a introdução do motor híbrido não foram. Um clubinho fechado pode ser ótimo para os seus integrantes – e só. Que a F1 não eternize tal estado.
