Fórmula 1
Tirar Spa-Francorchamps do calendário é um acinte
Desde a compra da Fórmula 1 pela Liberty Media, algumas coisas mudaram na categoria mais popular – e endinheirada – do automobilismo mundial. O saldo, ao meu ver, é positivo. A F1 estava condenada a continuar com o mesmo público e virar uma grandiosa chatice. Vieram os americanos e trouxeram a molecada de volta aos autódromos ou à frente da TV para acompanhar uma boa e velha corrida de carros. Não há como questionar isso.
Fazer show é com americano mesmo. Qualquer dúvida é só olhar o Super Bowl e dar razão a este humilde colunista. Certo, a Liberty chacoalhou a F1 e tirou certas padronizações tipicamente europeias da categoria a que transformaram positivamente. Mas nem tudo são flores. Ao implementar a ideia ‘’pagou, levou’’ para a realização de Grandes Prêmios em países são tradição alguma no automobilismo, ela engessou bastante o calendário e criou um problema na acomodação de tantas corridas.
Pense, por exemplo, na Alemanha, segundo país com o maior número de títulos da categoria. A pátria de Michael Schumacher está fora do calendário da categoria desde 2019. Como diabos a terra do maior piloto da história não tem uma corrida na F1? É surreal. Mas, não contentes com isso, os almofadinhas da Liberty podem deixar a Bélgica de fora e tirar do calendário uma das melhores pistas do automobilismo mundial: Spa-Francorchamps.
Para quem ama a F1 e o automobilismo mundial, os sete quilômetros de Spa-Francorchamps proporcionam o que uma corrida de carros têm de melhor. Um circuito veloz, cheio de curvas de alta e um traçado impressionante. Além, é claro, da Eau Rouge, uma das curvas mais famosas da F1 – não há um fã da categoria que não saiba da sua existência. Uma corrida em Spa é um evento único.
Não só os fãs amam a pista. Alguns pilotos já vocalizaram o descontentamento com a possibilidade da saída de Spa-Francorchamps do calendário. Max Verstappen e Lando Norris, por exemplo, deram declarações contundentes nesse sentido. O atual campeão confessou ter o circuito belga como o seu favorito dentre todos – um ‘’certo’’ Ayrton Senna também achava. Já o jovem britânico da McLaren foi além e resumiu a situação de maneira assertiva: infelizmente, é tudo sobre dinheiro.
E não há como discordar de Norris. De que maneira pode ser explicada a inclusão de uma pista como Jeddah? O GP da Arábia Saudita é de altíssima velocidade, mas além de ser um circuito de rua – naturalmente estreito – é recheado de curvas cegas sem área de escape. A primeira corrida foi um festival de bandeiras vermelhas, paralisações e muitos acidentes. A segunda foi realizada em meio a um clima de insegurança total – ocorreram bombardeios próximos do local nos treinos livres. Enfim, tem-se um GP problemático.
Mas os saudistas pagam – e pagam bem. A F1 que gosta de arrotar progressismo, que condenou Nelson Piquet por suas falas problemáticas e estampa como slogan We Race As One (nós corremos como um) não vê problema algum em correr na Arábia Saudita, no Qatar e em Abu Dhabi. Todas essas nações violam coisas como direitos humanos, tolerância religiosa e liberdades individuais, valores tidos como sagrados para o Ocidente.
O simbolismo de correr na Arábia Saudita é extremamente negativo. Responderiam os chefões do espetáculo: e daí? A Aramco foi a primeira empresa a fechar acordo com a F1 desde a chegada da Liberty e é patrocinadora da Aston Martin, cujo principal piloto é um ambientalista notório. Se tem grana, está tudo bem, tudo se resolve. A F1 também não via problema em correr na África do Sul em pleno apartheid. Enquanto era rentável e o show dava lucro, os responsáveis pela maior vergonha da história da categoria não se envergonhavam nenhum pouco. E daí se os negros eram tratados como animais e subclasse de gente? O que valia era a grana.
Não sou anticapitalista, tampouco faço pregação pelo socialismo ou o que quer que seja. O que desejo é coerência. Uma pista fantástica como Spa-Francorchamps ficar de fora do calendário para acomodar circuitos horrorosos como Jeddah é demais para mim. Utilizo o exemplo saudista por ele ser o mais emblemático, mas existem outros. Toto Wolff já expressou o desejo de três corridas na China – uma ditadura cujo regime político matou milhões de pessoas e continua de pé. Que tradição tem a China no automobilismo?
Enfim, são apenas questionamentos. Não posso deixar de lamentar a provável saída de Spa-Francorchamps da F1. É um acinte.
Este artigo de opinião é uma visão do autor e não representa necessariamente a visão do site Vai Que Tô Te Vendo
