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Fórmula 1

Segunda Bandeirada #53: Nunca há mérito

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Foto: McLaren

Faz algum tempo que não apareço por aqui. Os motivos são vários e não vêm ao caso, mas o fato realmente importante é que não deixei de acompanhar a temporada da Fórmula 1. Nem mesmo a falta de empolgação causada pela disputa insossa entre Oscar Piastri e Lando Norris é suficiente para afastar qualquer cabeça de gasolina da categoria mais importante do automobilismo mundial – sim, é mais importante, relevante e impactante, queiram ou não. 

Pois bem, o Grande Prêmio da Hungria traduziu a tônica da atual temporada. A começar pela largada: Norris caiu da terceira para a quinta posição sem dar o menor trabalho para George Russell e Fernando Alonso. Como larga mal o britânico da McLaren. Não é de hoje que isso acontece. Isso faz com que ele tenha que escalar um Everest em todas as corridas, aumentando a margem para erros – isso para um piloto muito criticado por fazer bobagem nos momentos decisivos. É algo merecedor de uma boa reflexão, embora o próprio pareça não ligar muito. 

Apesar disso, é necessário fazer justiça. Norris é dono de um talento suficiente para compensar os erros pontuais numa largada aqui, numa escapada de pista acolá. No restante da prova, ele foi cirúrgico e até mesmo metódico – o que não combina com o seu estilo – para caminhar tranquilamente rumo à sua nona vitória na carreira. Adotou a estratégia certeira de parar apenas uma vez, segurou a pressão de Piastri nos momentos finais e contou com a sorte ao escapar de uma abalroada do australiano na penúltima volta. 

A chave da abóbada foi a estratégia das paradas. Com tempo nublado, pista nada quente e o conhecido problema de tráfego numa pista curta e travada como Hungaroring, a hora do pit stop faria total diferença no resultado. Enquanto os outros ponteiros pararam cedo demais e estragaram seus pneus ao caírem no tráfego – Charles Leclerc e Max Verstappen foram exemplos notórios –, Norris adiou sua parada, assumiu a dianteira e correu de cara para o vento sem a menor preocupação. Poderia gerenciar seus pneus de forma correta e tentar apenas uma parada. 

Foi justamente o que aconteceu. Para que se tenha uma ideia, basta lembrar que Leclerc, o pole position, parou na volta 20 e foi obrigado a fazer outra parada, Norris foi para os boxes apenas na volta 32. Se ele levou seu jogo de médios por 32 voltas, fazer o mesmo por 38 voltas com duros não seria tão difícil assim. Piastri fez a sua segunda parada na volta 46 e era o único com condições de ameaçar sua vitória, mas teria uma tarefa hercúlea pela frente de tirar uma desvantagem enorme. 

O australiano remou e ensaiou uma pressão nas voltas finais. Porém, foi insuficiente para desbancar Norris. Ainda assim, ele quase bateu no companheiro ao tentar uma ultrapassagem improvável no final da grande reta – algo com potencial de findar o clima amistoso na McLaren. No fim, mais uma dobradinha para o time papaia. 

Vitória incontestável de Lando Norris. Diferente dos críticos mais amargurados, ele tem méritos de sobra. A sorte está ao lado dos bons pilotos – e não explica tudo. 

 

O purgatório do heptacampeão 

 

Foto: Ferrari

 

Lewis Hamilton fez mais uma corrida burocrática. Largou com um composto duro, numa estratégia invertida em relação ao resto do grid, mas nada adiantou. Chegou na mesmíssima décima segunda posição em mais uma corrida sem brilho. 

É uma situação desconfortável. Vestindo o vermelho da Ferrari, Hamilton não venceu ou conquistou pódio até agora – nem mesmo a vitória na sprint da China foi suficiente para trazer algum alento a ambas as partes. Tamanha frustração é visível no semblante e nas coletivas do heptacampeão: Lewis isentou a equipe de culpa e transferiu para si a responsabilidade dos resultados ruins. 

Sabemos que um piloto do seu nível sempre se cobra mais que os seus pares. E tal cobrança é utilizada pelos seus detratores como prova cabal de que ele não tem um talento condizente com suas conquistas. Pergunto a tais pessoas: se o piloto com mais títulos, vitórias, poles e pódios da categoria não é bom, quem é, afinal?  

É conhecida a sua péssima adaptação aos carros com efeito solo, mas Lewis não deixou de ser excelente por causa disso. O purgatório iniciado em 2022 não apaga a história. 

 

A hora de Bortoleto 

 

Foto: Stake Kick Sauber

O GP da Hungria deu muitos motivos para alguns pilotos sorrirem de orelha a orelha. E não há como apontar Gabriel Bortoleto como um dos contemplados. Ele pontuou novamente e chegou em sexto lugar, a melhor posição da sua incipiente carreira na F1. 

Bortoleto fez uma corrida precisa, não cometeu erros e contou com uma estratégia correta da equipe – coisa rara nesta temporada – para conquistar uma posição tida como vitória. A Sauber melhorou bastante no decorrer do campeonato, mas ainda é um carro ruim e malnascido. Chegar em sexto guiando o carro esverdeado com partes pretas é vencer. 

Nada mal para quem foi tão criticado até um tempo atrás. Chegaram a comparar as suas atuações com as do companheiro, como se fosse mesmo algo razoável. Nico Hulkenberg é mais experiente, talentoso e foi contratado para o ser líder do projeto encabeçado pela Audi, normal que andasse melhor. Ainda assim, não vimos falhas ou erros grotescos de Bortoleto – o que já era muita coisa para um estreante. 

Ter que lidar com certos fãs é complicado – eles não conhecem muita coisa e nem desejam conhecer. Para eles, ninguém tem mérito em absolutamente nada. Seja Norris, Hamilton, Bortoleto ou quem quer que seja. 

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