Fórmula 1
Segunda Bandeirada #46: Mais uma aula
Pensei diversas vezes acerca do título desta coluna. Não sou bom no exercício e quase sempre a minha mente está deserta de boas ideias para tal empreendimento. A parte mais difícil de um texto é um começo, confesso que bate um desânimo quando nada de interessante sai. Perdoem-me o desabafo, mas uma corrida tão modorrenta como este Grande Prêmio do Japão deixa qualquer um sem vontade de pensar ou escrever.
Exceto pela aula de Max Verstappen. Há adjetivo melhor para descrever a performance do tetracampeão no desafiador circuito de Suzuka e seus pouco mais de cinco mil metros de pura técnica? Certamente não. Durante o fim de semana inteiro foi assim, com maior destaque para o sábado e o domingo, obviamente. A pole conquistada com o cronômetro zerado e tirando quase um décimo de vantagem do tempo de Lando Norris foi magistral – sem contar com o fato óbvio do RB21 ser uma máquina arisca e errática. Pode-se dizer que foi no braço.
Verstappen não foi ameaçado em nenhum momento da corrida. A largada foi perfeita e Norris ficou sem qualquer possibilidade de tomar a dianteira. O único instante em que ambos estiveram colados foi na única parada da prova, quando a Red Bull demorou um segundo a mais que a McLaren na troca e os dois saíram quase lado a lado do box. Lando quis demonstrar uma esperteza que não possui e tentou uma improvável ultrapassagem, indo parar no ponto mais óbvio de todos com tal atitude: a grama. Ainda reclamou no rádio de um suposto empurrão para fora de Max, que nada fez além de seguir na linha normal da corrida e estar com o regulamento debaixo do braço. Assim fica difícil defender o britânico.
A diferença entre os postulantes ao título permaneceu entre um e dois segundos, nada além disso. Em condições normais, Norris teria feito a ultrapassagem. Mas o seu oponente é o melhor piloto do grid – e dá provas de marchar para ser o melhor da história. Não houve a menor chance de sequer entrar colado na zona de DRS e tentar uma aproximação maior. Verstappen guiou por 53 voltas sem cometer um único erro, mesmo com um adversário tendo um carro melhor na sua alça de mira e um problemático RB21 para administrar. Colocar-se na luta pelo pentacampeonato com tal máquina já é um feito e tanto, e Max parece não ter a menor pretensão em largar a disputa – mesmo que o cenário em Suzuka dificilmente se repita.
Pois bem, a corrida foi mesmo chata. Digam o que quiserem, mas a maior culpada é a Pirelli com sua escolha bizarra pela gama mais dura de pneus – C1, C2 e C3. Com uma pista úmida, o desgaste foi bem menor que o esperado e a maioria dos pilotos parou apenas uma vez. Corridas com apenas uma parada são naturalmente chatas, e num circuito como Suzuka – com apenas um ponto real de ultrapassagem e uma zona curta de DRS – tal diagnóstico é elevado à enésima potência.
Isso explica a performance sem destaque algum de Gabriel Bortoleto, por exemplo. Largando com pneus duros – numa estratégia altamente questionável da Sauber, já que Lewis Hamilton fez a mesmíssima coisa e também fez uma prova apagada – e com um carro abaixo da crítica, o resultado não poderia ser outro: fundo do pelotão sem conseguir ultrapassagens. Mesmo colado em Esteban Ocon, Bortoleto sequer ameaçou o francês da Haas. No fim, nada de anormal, o que para um estreante guiando o pior carro do grid é algo até positivo.
Não posso deixar de pontuar como a McLaren não parece ser uma equipe com cancha para disputar seriamente o título. Prova disso é o rádio em que o engenheiro de Norris fala para ele parar e fazer o undercut em Verstappen. Se eles acham que esse blefe iria ludibriar uma equipe como a Red Bull, precisam mergulhar urgentemente na realidade. A RBR não enfileira títulos desde 2021 por acaso. É um time competente e com ótimos profissionais. Não inverter as posições e possibilitar Oscar Piastri uma chance de vencer é do jogo – nada garantiria que ele teria êxito. Mas esse rádio foi revelador e preocupante.
A Fórmula 1 volta daqui uma semana no Bahrein. Dificilmente veremos a mesma coisa que no Japão, mas uma coisa é certa: Max Verstappen está no jogo. E se deixassem, ele dará mais uma aula de pilotagem.
