Fórmula 1
Segunda Bandeirada #24: De Montoya a Palou, o esnobismo da Fórmula 1 continua vivo
Não faz muito tempo que vi um vídeo em que Lito Cavalcanti – uma das minhas grandes referências no jornalismo especializado em automobilismo – falava daquilo que ele classifica como ‘’esnobismo’’ por parte do mundo da Fórmula 1 com determinados pilotos. O caso mais dissecado por ele foi o de Juan Pablo Montoya, o colombiano que bateu na trave em 2003 ao disputar aquele campeonato com Michael Schumacher. O motivo? Não seguir os ritos quase megalomaníacos da categoria acerca do piloto ser um atleta com a parte física impecável.
Pensei em escrever algo a respeito, mas como vocês sabem, tenho mais o que fazer e nem sempre sobra tempo para um artigo como esse. Além disso, a F1 contemporânea está muito bem obrigada de temas pertinentes. Porém, li uma declaração recentes de Helmut Marko a respeito de Montoya que comprovava exatamente o que Lito Cavalcanti falou. O conselheiro da Red Bull, em tom de desprezo olímpico, disse que o colombiano ‘’não queria nada além dos seus hambúrgueres’’.
Helmut Marko já falou muita bobagem, algumas até preconceituosas e inaceitáveis, mas a sua opinião acerca de Montoya é absolutamente reveladora acerca do que pensa o petit comité da F1. Ou vocês esqueceram do papelão que a categoria protagonizou ao negar a entrada da Andretti alegando os motivos mais estapafúrdios possíveis? Quem é de fora e não reza essa cartilha esotérica é visto com absoluto desdém.
Aí eu cito um caso de outro piloto que demonstra por a mais b o que estou falando: Alex Palou. Bicampeão da Fórmula Indy, onze vitórias, 31 pódios e seis poles. O espanhol é dono de um talento que se destaca facilmente em relação aos outros pilotos, além de combinar velocidade natural com inteligência para gerenciar uma corrida como poucos. Com tal currículo cheio de ótimos serviços e bons predicados, não espantaria que as equipes da F1 olhassem para ele com carinho, certo?
Errado. Com exceção da McLaren, ninguém do clubinho fechado sequer cogitou a possibilidade de colocá-lo no grid. Aliás, o time comandado por Zak Brown chegou a anunciar Palou como piloto do grupo, mas o espanhol tinha planos de ao menos ter a chance de guiar na F1. Como Lando Norris e Oscar Piastri possuem vínculos de longa duração com a McLaren, tal chance não seria viável. Por isso mesmo, Palou decidiu continuar na Chip Ganassi Racing. Fez bem: a equipe do homônimo – e nada simpático – ex-piloto americano é bem mais consolidada e daria a ele maiores condições de continuar sua trajetória de sucesso na Indy.
Pode-se alegar que ambas as categorias são diferentes e Palou precisaria de tempo para uma adaptação satisfatória, mas (I) um piloto do quilate dele tem totais condições de superar adversidades iniciais e (II) a F1 já deu tempo demais para quem não tem nível que justifique uma permanência maior que uma temporada. Lance Stroll, Kevin Magnussen, Valtteri Bottas e tutti quanti fazem hora extra há tempos, enquanto um Alex Palou não corre na categoria por falta de vagas disponíveis.
Volto ao caso de Montoya. O que diabos os seus hambúrgueres impactavam na sua performance? Se o impulsivo colombiano gostava de Big MC ou Rodeio Duplo – nem sei se esse último existia na época, citei por ser o meu sanduíche preferido – nas horas vagas, isso era algo irrelevante. No seu auge, ele ultrapassava e jogava duro com Michael Schumacher – o maior de todos. Mas como a F1 gosta de pompas e circunstâncias absolutamente dispensáveis e desprezíveis, os olhares tortos abundavam o círculo do então piloto da Williams.
Lembro da troca de farpas entre Lewis Hamilton e Tony Kanaan em 2017. Na época, Hamilton debochou do nível Fórmula Indy ao falar do desempenho de Fernando Alonso no treino classificatório para as 500 milhas de Indianápolis. Kanaan rebateu e disse que o heptacampeão perdeu um campeonato – o de 2016 – com dois carros, em clara referência ao domínio absurdo da Mercedes. É claro que a F1 não se resume a dois carros, mas compreendo a resposta de Tony. A declaração de Lewis foi a mais desprovida de inteligência sobre a Indy que já vi. E, é claro, revela o escasso imaginário do seu meio.
O texto pode ter saído com um tom de desabafo incomum para quem ama a F1 como eu. Porém, não sou cego. A categoria é ótima, tem uma história riquíssima e faz o coração dos apaixonados pelo esporte a motor bater mais forte. O que não me faz deixar de reconhecer algumas lacunas e certos equívocos dos seus representantes. O seu esnobismo para quem é de fora é um deles.

Foto: Reprodução – Nas Pistas/ IndyCar
