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Fórmula 1

Segunda Bandeirada #23: Não tá morto quem peleia

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Meus leitores mais assíduos sabem que o Segunda Bandeirada é publicado normalmente na segunda-feira, mas como algum ou outro imprevisto acontece, por vezes a coluna é adiada. No presente caso, uma semana de dores abdominais e uma mesenterite fizeram o favor de adiá-lo – sobrevivi na base da dipirona, o mais útil e amargo dos remédios. Quem consegue escrever com dor? Com exceção das amorosas, é claro – elas servem de ótima inspiração.

Feito o esclarecimento, falo do Grande Prêmio do Reino Unido, disputado em Silverstone – o nascedouro da Fórmula 1. Pois bem, como falar da corrida se as imagens protagonizadas por Sir Lewis Hamilton valem mais que mil textos? O punho erguido pela nona vez em casa, a bandeira da ilha que inventou o futebol e foi berço da F1 erguida, as lágrimas na entrevista… Tudo isso fala por si.

Hamilton deu um show. 945 dias, 56 corridas, duas temporadas e (quase) meia… Ao receber a bandeira quadriculada em primeiro, ele deixou tudo isso para trás. Um período de sofrimento, dissabores e sem perspectivas de vitórias. Uma fase totalmente atípica para quem se acostumou a vencer tanto, a fazer história e dinamitar marcas dos outros semideuses do volante. Demorou mais do que o normal, mas o dia chegou.

Os sinais de que a possibilidade existia foram dados já nos treinos livres. Porém, a coisa ficou ainda mais cristalina na classificação com a dobradinha da Mercedes – coube a George Russell fazer a pole. As flechas prateadas finalmente entrariam numa corrida com chances reais de vitória, até mesmo de fazer 1-2. A McLaren parecia ter o melhor acerto para a chuva, e Max Verstappen – sim, cito apenas ele, pois a Red Bull não pode contar com Sergio Perez para absolutamente nada – teria de fazer mágica com seu RB20 abaixo do esperado e com o assoalho trocado após uma saída de pista no Q2.

Ao começar a chover, a ótima perspectiva para a McLaren se confirmou: Lando Norris e Oscar Piastri passaram para a dianteira. Os carros papaias andavam muito com a pista úmida. Porém, a equipe alijou seus pilotos com erros crassos. O primeiro: não parar ambos ao mesmo tempo para colocar o composto intermediário. Piastri teve de andar com pneus slick e voltou em sexto após entrar nos boxes uma volta depois. O segundo: uma troca desastrosa que custou a liderança a Norris, que viu a sua chance de vitória virar pó. Ele errou ao parar o carro num local inadequado, mas isso não exime de culpa a equipe.

Verstappen brigou com os adversários e um carro errático sem desempenho capaz de brigar pela vitória. Ele ultrapassou Norris na largada, mas não conseguiu abrir uma vantagem razoável e logo perdeu a posição. Chegou em segundo porque é o melhor piloto da atualidade e tem uma equipe assertiva nas estratégias. Ao optar pelo composto duro no último stint da prova, deu ao tricampeão a oportunidade de passar Norris e ensaiar uma briga pela vitória, mas faltou tempo. A segunda posição foi um lucro enorme em outro final de semana difícil para ele e para a equipe.

Enquanto isso, Hamilton foi remando. Sabendo ter um carro capaz de brigar pela vitória, soube ter cabeça e fazer uma corrida magistral. Russell estava frente? Passa na pista – ele abandonou depois. Perdeu a dianteira para Norris na volta 20? Tudo bem, ainda teria muito pela frente. Na parada definitiva, tomou a liderança e não perdeu mais. Poderia ter sido ameaçado por Verstappen que voava com o composto duro, mas a diferença era suficiente para chegar em primeiro. Uma vitória muito lutada e com um sabor especial para o heptacampeão, sem sombra de dúvidas.

Muito tempo sem vencer. Hamilton é um piloto acima de qualquer dúvida – os números falam por si. Mas a falta de vitórias fez ele mesmo se questionar e colocar a sua capacidade em xeque. Por isso mesmo as lágrimas, o rádio emocionado e a comemoração anormal para quem já esteve 104 vezes no lugar mais alto do pódio. Não tem lugar melhor que vencer do que a sua casa, e Silverstone é mesmo o lar de Lewis: foi a nona vitória no templo sagrado da F1, superando Michael Schumacher no recorde de mais vitórias no mesmo circuito – o alemão venceu oito vezes em Magny-Cours.

Posso dizer que fiquei feliz em ver a vitória de Sir Lewis Hamilton. Ele é um dos maiores de todos os tempos e batalhou muito para quebrar este incômodo jejum. Como dizem os gaúchos, não tá morto quem peleia. E aos 39 anos, o heptacampeão vive o auge físico e técnico. E mais vivo do que nunca.

 

Foto: Reprodução – CNN Brasil/ X/ F1

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