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Preece, o filme do underdog

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A NASCAR é um puro e colossal estúdio de cinema, vamos conver.

Nem o perfeccionista Tom Cruise, que circulou por Daytona na persona do inconfundível Cole Trickle, jamais escreveria roteiro melhor.

Trickle foi o legitimo herói teimoso da pista com seu Mello Yello no primeiro “Dias de Trovão”, no distante 1990, quando ainda recebia ordens do saudoso Robert Duvall.

E assim como Trickle, persistente e vencendo nos detalhes os que tentavam o “colocar” no seu lugar, há quem imite seu roteiro dentro do que a realidade o coloca.

Dai entram os detalhes, aqueles que nenhum roteiro cinematográfico pode reproduzir nas minucias que o imprevisível desenha numa casa como o mítico Daytona.

Tom Cruise como Cole Trickle, no primeiro “Dias de Trovão”, em 1990 (Reprodução)

A linha do Chase, o corte, o que separa os contendores da grande Copa dos turistas de fim de ano e seus tentos ocasionais.

Ele é cruel faz tempo. Corta na raiz e não faz distinção de nomes poderosos e equipes tradicionais. Simplesmente, você não tem nada garantido se aquela linha decide seu lugar entre os que vão para as cabeças ou não.

Há quem já tenha certeza de que estará do outro lado, dado o desempenho ou até a previsibilidade de suas presenças. Seria uma tragédia dramática digna de dramalhões dos anos 1940 um piloto como Hamlin, Larson, Logano e afins não seguirem para a briga final.

Mas há aquelas que, pelo simples fato de subverterem a lógica do previsível, resolvem transformar uma noite de impossível em algo que, certamente, será um ou “um dos” pontos altos de uma carreira talvez mediana.

Ryan Preece: dos underdogs que aparentam não chegar longe, mas que podem escrever dias memoráveis na pista (Reprodução)

Ryan Jeffrey Preece seja, para alguns, apenas mais um número enchendo os grids numerosos da categoria e, vez ou outra, promovendo voos de golfinho com suas atuações, mesmo contando hoje com a assistência de uma mediana Roush, cujos tempos de glória se vão um pouco longe.

Nasceu no mesmo ano que este escriba na cidade de Berlin, a versão criada em Connecticut da capital alemã. Seguiu o caminho padrão de qualquer um movido a gasolina e odor de borracha queimada no mundo dos Stock Cars até chegar a um canto da NASCAR e fazer de cada fim de semana sua profissão.

Em números, talvez não seja uma carreira brilhante. As vitórias em categorias de acesso se contam com os dedos. Mas algo o fez ser visto com bons olhos para chegar a cobiçada Cup, e começar sua trajetória quase como um figurante entre os sobrenomes mais famosos.

Como qualquer bota jovem, Preece sonha em ser um dos que levante a grande copa um dia ou que tenha seu nome imortalizado em alguma daquelas grande pistas que permitem anônimos, por vezes, a ser alçados a estrelas do certame.

Mas como roteiro de filme escrito, o garoto de Connecticut conheceu algo que ligasse misticamente a sua profissão a uma praça: Daytona, a cobiçada, desejava, sonhada, perigosa e seletiva nos que a alcançam na glória.

Preece está girando por lá já se passam uma década na Cup, até que descobriu, involuntariamente, que voar em Daytona era uma espécie de sina.

O voo em 2023 e as marcas nos olhos: os calos dos primeiros anos e Daytona virando sina (Reprodução)

Em uma noite naquela praça, em 2023, aquele beijo sutil na face da tragédia quando viu seu mundo voar e girar várias vezes no ar, num thriller assustador e tragicamente climático.

Voltou com os olhos marcados, assustando os colegas, mas esperando pacientemente a hora de recolocar o elmo e voltar a acelerar.

Em 2025, lá estava ele nas fileiras de Daytona, novamente no tempo noturno. Outro voo, não tão assustador mas parte daquelas coincidências clássicas das resenhas a beira dos carrinhos de cachorro-quente.

Preece, aos olhos dos que acompanham o girar dos Stocks, apenas aparecia como um figurante de luxo, sobretudo por estar acelerando há dois anos uma das máquinas da outrora gloriosa Roush, alcunhada hoje nas letras de seus sócios: RFK.

Outra vez, se vendo diante do Chase, separado por aquela bendita linha tênue entre lambaris e tubarões, carregando o peso de ainda ser visto como o “improvável”, que rondava bem abaixo nas casas de apostas.

Era um misto de atuação cinematográfica e milagre cristão que rondavam o carro #60 antes da largada de, novamente, uma Daytona decisiva.

Sempre ela, Daytona, onde voar era apenas um esborrachar digno de Coyote e Papa-Léguas.

Primeiro golpe: escapada pra grama no fim do primeiro estágio. A sina continua? (Reprodução)

Fazer a sua parte não bastava. Precisaria de outros escritos no próprio roteiro para aquela noite terminar bem e acima da linha cruel.

Quarto lugar, primeiro estágio parecendo sair da curva de vida… e um atropelo imprevisível vindo das coincidências místicas do oval: na carambola, o companheiro de esquadra (leia-se Chris Buecher) o leva junto pra grama.

Agora deu! É o previsível, o contendor vai levar a melhor e a lógica de coadjuvante continua para o #60.

Mas se uma coisa o fã da NASCAR aprende é que a certeza nunca é cravada com 100% de força antes da metade de qualquer coisa, a não ser que o abandonar seja definitivo.

Segundo estágio, escalada. Passares aqui e ali.

Terceiro estágio, subindo o monte alto, esquivas. Acertos no calculo.

Ao piscar o olho, quase como jogar xadrez contra Garry Kasparov e estar próximo do xeque-mate contra você, eis que a certeza do fracasso vira a chance do improvável.

A liderança, gosto que era necessário sentir tanto quanto naquele momento.

Quase como guiar e olhar, do lado do banco, um papel assinando sua demissão previsível da velha casa da Roush.

Bandeira amarela. Um tiro… dali para a glória ou para a certeza do fracasso de outrora. A figuração constante.

Assim foram, quase olhos fechados. E o roteiro escreve os detalhes.

Lembra dos detalhes? Aquelas cenas que só os filmes escrevem na nossa mente?

O contendor e seu touro são derrubados quase que pelos sopro do perigo.

A conta do petróleo fecha milimetricamente.

E, como combinado e próximo de perder a dianteira outra vez. Acende-se a luz.

Nunca o amarelo foi tão dourado para o jovem de Connecticut. Era a glória.

Ryan Jeffrey Preece conseguiu. Era um vencedor da grandiosa NASCAR Cup.

Preece supera Suarez na linha. Não precisava mais, nos detalhes, ele venceu (Reprodução)

Na hora que precisava.

Como o roteiro escreveu sem ele saber.

E no palco que, por duas vezes, o colocou para voar como galinha.

Hoje, um galo, que “chutou bundas” e ganhou um foguete da casa histórica.

Talvez nunca mais conquiste uma glória como aquela ou seja apenas um mero espectador por sob a linha do afamado chase e seus sobrenomes famosos, donde chegou pela vez primeira.

Mas, se precisava de uma história pra contar para os netos ou inspirar algum de sua prole a o superar na pista, ele conseguiu.

Uma história? Um filme, que nem Cole Trickle escreveria.

E Ryan Preece escreveu.

Outra noite de história escrita na grandiosa NASCAR. Para fãs, jornalistas e operários do esporte.

Para Ryan Preece, a mais especial noite veloz da sua vida.

Daqui para a lua, #60!

(Grato a sugestão de desafio da lenda Pedro Simões!)

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