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Ainda se sonha com Kyle Busch

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“Não sei quando Kyle Busch vai parar, mas quando ele parar vamos ter dele as melhores lembranças, pelo bem ou pelo mal”

Na semana anterior, você cala a cabine de analistas.

Arrebata uma corrida inteira, domina os estágios, vence com a experiencia embaixo dos braços. Coisa que, habitualmente, você já fez tantas vezes e em todos os níveis que só mesmo uma regra podia lhe parar.

Mas, mesmo assim, soma mais uma vitória no palco que você conhece bem. Agora eram 13 tentos naquela que apavorava pelo epíteto de “milha monstro”.

Depois, rasga os pneus no habitual burnout vencedor, como sempre fez, além de dar risada dos desafetos e detratores que, também habitualmente, começavam uma corrida pedindo pra você colar o seu carro no muro e não sair dali.

Ri, celebra no victory lane e soma mais uma grana boa no saldo do mês…

E ai, parte.

Morre.

Repentinamente. Sem avisos, apenas o que você mesmo sabia (ou talvez não soubesse).

Em meio a confirmações do fato e a nefastidão da busca pela causa-mortis, deixa completamente atônitos, travados e em lágrimas um sem-número de fãs, aficionados e, até mesmo, os rivais e detratores que dividiram curvas e foram desafiados jocosamente por você.

Ninguém deseja uma morte, e nunca se está preparado pra verdade da vida, como dizia Nilton Santos.

Mas, o repentino, quando ele vem, não prepara ninguém. Nem quem mais lhe esperava na próxima prova para deseja-lhe ver no muro encalacrado.

É aquele choque duro, num muro sem soft wall. O que desacelera como um travo violento em algum oval do dia e por ali fica, encerrando uma jornada.

Tem coisas que marcam a carreira da gente como tal que, ao rever o momento final que parecia tão simplório e comum, dá um choque toda vez que se aperta o play.

Lembro da euforia em cravar “13 vitórias” para o irmão mais novo de Kurt. E do meu “lado”, Rodrigo Mattar soltar a oração que abre esse escrito.

E depois da rotina, como hábito, o piloto encara a repórter de cabelos bagunçados, macacão úmido pelo suor da força centrifuga da pista implacável e expressa quase que num suspiro pacato: “nunca se sabe quando será a última”.

Em algum lugar de qualquer oval, depois daqueles dias de maio, a NASCAR e sua grandiosidade de números e nomes ainda sonha com o vulto do dorsal 8 e de seu dono.

Aquela frase habitual solta no ar por algum enraivecido – “buschinho no muro!” – desapareceu tão rápido quanto o cidadão ao qual desejavam ver encalacrado numa curva, para a alegria geral dos detratores.

Não como um ódio de babar sangue, mas como uma divertida fleuma construída por um cidadão veloz e sua arte de, ao mesmo tempo sendo vencedor e veloz, agir também como impetuoso, selvagem, chato de galocha e escrachado beirando o imaturo diante das vaias.

Eterna guerra: Busch X Earnhardt Jr.

Alias, não teria sido Carlos Imperial que, em dada reflexão matinal entre lebres, teria afirmado que “só a vaia consagra o artista“?

Assim sendo, Kyle Busch é o exemplo vivo desta frase escrita por anos e anos ininterruptos de vitórias, brigas sangrentas e deboches raivosos aos que desejavam ver seu fracasso.

Não era um exemplo de conduta, mas de rebeldia na pista. A NASCAR gosta disso, desse espetáculo quase cinematográfico típico hollywoodiano, de todo fim de semana veloz. E se haviam os mocinhos e os loucos, Kyle era o adorável vilão deste filme constante.

Saiu da sombra do irmão, desafiou o status quo e ganhou inimigos por não aceitar a imposição dos nomes e sobrenomes de sempre a sua frente.

Seguiu a risca do espetáculo e virou parte dele, anotando em algum caderninho largado entre M&M’s números que só cresciam, mesmo depois dos tempos de apogeu e maior evidência.

Depois dos grandes tentos, só restava a quase sacra diversão em voltas de ovais, mistos e ruas, para deslumbre dos que cultuam os nomes e sobrenomes famosos e para ranço dos que lhe desejam ver amassando o bólido.

Tributo de Denny Hamlin à Rowdy em Michigan (Brett Farmer/Getty Images)

Só que, na mesma proporção dos grande números, a NASCAR também tem as grandes emoções, das mais jubilosas as mais dolorosas quando a dama de preto – aquela que não se veste de asfalto como Darlington – aparece para apanhar algum destes pelo contrapé.

Se não na pista, em alguma esquina da vida. E assim foi Kyle Busch, deixando uma família enlutada, uma equipe com um banco vazio, milhares de números 8 de preto e uma série de pilotos que, em reverencia, repetiram o famoso “bow” em cada vitória.

Ainda repetem o bow.

Ainda se veem os números 8 por ai.

Ainda. A NASCAR ainda parece sonhar com Kyle Busch, como sonha com os que perdera com o tempo.

E ainda vamos sonhar um pouco mais, e não só com Kyle.

Quem não conhece, nem adianta explicar. Há coisas que nem o esporte a motor tem no seu interior sentimental. Quem dirá a gigante NASCAR, que leva emoções aos extremos, sobretudo quando a partida eterna de um faz isso com uma legião.

Portanto, aproveite a vida, acelere, ame seu amor e seus amigos. Honre seus pais e reverencie quem mereça e cá não está mais.

Kyle Thomas Busch já dizia: “nunca se sabe quando será a última”.

Godspeed Rowdy!

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