Automobilismo
60 anos
Pra um torcedor italiano, no automobilismo, as coisas parecem que sempre demoram um tempo considerável para acontecer.
Foi assim em 2023, quando a Ferrari venceu em Le Mans.
Da mesma forma em 2000, quando Schumacher acabou com a bendita fila de 21 anos que assolava a casa de Maranello.
E jejum, sabemos bem nós como é algo incômodo. O tempo vai passando tanto e tão “na mesma” que se torna algo comum o dia seguinte no grid da F1.
Já vamos há 17 anos sem um brasileiro vencer um mísero GP, sem falar dos 35 anos a se completar com a ausência de um campeão patrício na categoria.
O tal do “trauma de Senna”, sabe? E os italianos tem o seu.
Não falamos, notadamente, da Ferrari tão sacra e idolatrada na terra da bota, mas dos que não necessariamente tiveram a benção da casa do comendador.
Em matéria de pilotos italianos, já vimos tantos que tentaram, fizeram o seu mas nunca passaram da risca inalcançável do que, um dia, foi Alberto Ascari.
Ainda ele é o último italiano campeão do mundo, e é daquelas coisas que, de tão longo o jejum, tão comum fica de ver um italiano no grid apenas para “encher grelha”, nada mais.
Podia ter sido Bandini, Giunti, queimados brutalmente entre os anos 1960 e 1970.
Podia ter sido Patrese, mas o “queimar” do italiano foi antes mesmo de pegar qualquer gordura de piloto de ponta, e foram 256 corridas como um “bom mediano” entre as cobras dos anos 1980 e 1990.
Sem contar as hordas de pilotos vindos da terra da bota que lotaram grids e pouco conseguiram: Bons como De Angelis e Nannini, ou opacos e medianos De Cesaris, Capelli, Caffi, Martini, Tarquini e por ai afora.

Michele Alboreto: o mais perto que a Itália chegou de um titulo de pilotos depois de Ascari (Reprodução)
Michele Alboreto? Virou um desses pontos fora da curva, mas teve seu limite também. O que 1985 reservava pra ele, talvez seria a maior conjectura de fatores para o país sair da fila: ser campeão com uma Ferrari.
Infelizmente, o campeonato tem duas metades, e na segunda dela o “marocchino” simplesmente desapareceu. Um francês narigudo levou tudo com um carro britânico e lá ficou a Itália no “quase” entre pilotos outra vez.
Anos depois ainda, ouvimos falar de Giancarlo Fisichella e Jarno Trulli. Ambos vencedores de Renault, mas infelizmente alternando entre performances brilhantes e vários momentos medianos para opacos.
E veio o nosso tempo, e com ele Andrea Kimi Antonelli, que muitos já falavam apaixonadamente que seria um nome a ficar de olho, observar com carinho o que faria na pista.
Começou colocando um Mercedes na brita justamente na parabólica de Monza, convenientemente rebatizada anos depois de “curva Alboreto”, para colocar em dúvida se veríamos mais um italiano fazendo média e enchendo grid com brilhos ocasionais.
E nos enganamos. Mordemos a língua e estamos vendo o comum virar história escrita, como bem gostamos.

Antonelli na brita de Monza, em 2024. Desconfianças… (Reprodução)
Começaram as vitórias, altamente precoces para um garoto que mal saiu da escola e que levava para os colegas os feitos velozes do fim de semana.
E chegou, no começo deste ano, o ponto de que as vitórias começaram a se tornar quebras de jejum e paradigmas. Começando pelo mesmo Alboreto, que donde quer que esteja, viu um italiano liderar o campeonato pela primeira vez desde 1985.
Não é mais surpresa o desempenho colossal de Kimi na pista. Mesmo ainda sujeito aos erros de um juvenil, ele se atirou e busca os tentos com tenacidade vista em muitos veteranos.
E o que é mais “satisfatório”: colocou abaixo um possível status quo formado com o mais velho da casa: George Russell, cada vez mais visto com descrédito pelo circo por não conseguir fazer frente ao recém-chegado que já senta na janela sem cerimônia.
É um disparate humilhante observar que, antes de Monza, foram seis tentos do guri italiano no ano contra dois do companheiro de esquadra.
A liderança do campeonato, que muitos podiam achar temporária, tornou-se inconteste e o caminho para o titulo pode acabar com uma espera que vem desde a lenda de Ascari, o que parecia nunca vir.
E chegou Monza, o grande templo.
Aquele que, um dia, viu o menino sonhador atolar o veículo teuto-britânico na brita tão displicentemente.
Os prognósticos não eram os melhores: largar em 19º cumprindo punição por troca de motor.

O último: Ludovico Scarfiotti, em 1966. Monza foi ao delírio no mesmo dia do título de Jack Brabham (Reprodução)
E quando o desenrolar da competição foi se sucedendo na domingueira regada a vinho e spaghetti nas cercanias do templo, ocorreu a pergunta: quando foi a última vez que um italiano venceu na grande casa?
As memórias sempre negligentes da F1 não conversam com a justiça histórica, preocupadas com a “geração DTS” aparecendo sem tempo para reverenciar o passado.
Mas nós, dos tempos de antanho, não bobeamos aqui atrás da tela. E voltamos à 1966. Justos 60 anos, outra daquelas longas esperas italianas.
Foi de Ludovico Scarfiotti, lembrado apenas pelos hardcores das estatísticas e nomes, o autor do último tento italiano na grande praça veloz da bota. No mesmo dia que Jack Brabham, mesmo abandonando, saia das estatísticas para virar história com um carro feito por ele próprio.
Ludovico, italiano de Turim, vencedor de Le Mans três anos antes ao lado do já citado (e saudoso) Lorenzo Bandini e que perderia a vida cruelmente numa prova de subida de montanha, sendo um dos motivos do pesado 1968 nas pistas depois da morte de Jim Clark.
60 anos… lembra do que disse sobre as coisas demorarem consideravelmente para o torcedor italiano nas pistas?
Engana-se quem pensa que demoraria de novo. Kimi mostrou na pista como a sua maturidade como piloto tem superado o lado jovial que é propício a erros e deslizes na busca do melhor.
Perfeito nas voltas e na estratégia, se viu há 10 voltas literalmente com o companheiro de casa a sua frente, se virando com borracha velha em busca do que já era impossível.

Na primeira tentativa, o susto. Mas dessa vez, a brita não segurou o garoto (Reprodução)
Na primeira tentativa, o susto, um escorregar para a brita que poderia ser fatal não fosse o golpe de sorte e calma.
Há três voltas, a manobra final, sem prejuízos nem toques, talvez com um dedo da equipe, vivendo novamente dias de glória tal como vivera anos atrás.
De um Toto Wolf irritado e descontando a ira nos eletrônicos a sua frente para um chefe sorridente e entortando um italiano improvisado.
Quem não se emociona com a história sendo feita? Com um jejum longo sendo quebrado?
Injusto e incorreto dizer que eram seis décadas sem um italiano vencendo em casa. Seria apagar da história a vingança silenciosa de Riccardo Patrese, em 1990, no maluco vesperal de Imola.
Mas ali, diferente de Riccardino, até mesmo os tifosi, por vezes irredutíveis e passionais ao extremo quando não é um carro vermelho a frente, se renderam.

Patrese em Imola, 1990. Vitória com gosto de catarse (Reprodução)

A chegada de Antonelli, 36 anos depois de Riccardo. Dessa vez, os tifosi aplaudem de pé (Reprodução)
O vermelho se pintou de branco e cinza e o pequeno garoto da marca de três pontas foi carregado nos braços. O novo super-herói das massas, que faz esquecer o futebol, os dilemas políticos e até os spaghettis quebrados e o ketchup nas pizzas dos gringos.
Hoje foi mais um dia deste moleque chamado Andrea Kimi Antonelli.
Se será campeão? Não duvido que, finalmente, Ascari será sucedido.
Por que Ludovico o foi.
E o dia foi italiano no templo de Monza, 60 anos depois.

