24h de Le Mans
Os triunfos de Fernando Alonso em Le Mans
Os leitores mais assíduos da minha coluna podem estranhar este artigo. Não julgo: o meu foco sempre foi a Fórmula 1. Porém, o automobilismo é um esporte apaixonante que permite milhares de competidores arriscarem suas vidas pelo sonho de cruzar a linha de chegada em primeiro. Jackie Stewart disse algo semelhante em Fangio – o rei das pistas, documentário que trata da biografia do pentacampeão mundial de F1 e tido por muitos como o melhor piloto de todos os tempos. Quem ainda não assistiu, assista. Vale a pena.
Entre tantas corridas especiais que são esperadas todos os anos pelos fãs do esporte a motor, as 24 horas de Le Mans é certamente uma delas. Junto com o Grande Prêmio de Mônaco de F1 e as 500 milhas de Indianápolis, forma a Tríplice Coroa do automobilismo mundial. Até hoje, só Graham Hill conquistou tal façanha – fato que basta para colocá-lo como um dos maiores da história. Ganhar Le Mans tem um gosto especial e é o passaporte para a imortalidade.
Pois bem, um dos pilotos que mais gostei e gosto de ver guiar trinfou em Le Mans. Estou falando do príncipe das Astúrias, o bicampeão mundial de F1, um cara impetuoso e símbolo de talento puro: Fernando Alonso.
O espanhol é bicampeão em Le Mans, vencendo as edições em 2018 e 2019. Nas duas edições, os triunfos foram conquistados pela Toyota, e os companheiros foram Sebastien Buemi e Kazuki Nakajima. Vale lembrar que ambas foram na categoria LPM1 – que tem características próprias e utiliza a tecnologia híbrida desde 2012, dois anos antes da F1 seguir o mesmo caminho.
Em 2018, Alonso correu em um dos dois trios da Toyota – sim, em Le Mans uma montadora pode ter duas máquinas. O exitoso carro japonês guiado por ele e seus companheiros percorreu as 388 voltas da corrida num tempo de 24:00’52.247. A segunda colocação também foi para a Toyota, na equipe composta pelo trio Mike Conway, Kamui Kobayashi – aquele mesmo que correu na F1 – e José María López. Detalhe interessante: todos os dez carros da categoria LPM1 correram com pneus Michelin. Nada de outra fabricante.
Já no ano seguinte, a vitória veio com menos facilidade e contornos um tanto dramáticos. O carro da Toyota guiado pelo trio Conway, Kobayashi e López sofreu dois furos de pneus, resultando numa parada não programada e deixando o caminho livre para o triunfo da outra máquina japonesa. O próprio Alonso admitiu a sorte tremenda que ele e seus dois colegas obtiveram com o infortúnio dos ‘’companheiros’’. Porém, como diria Giampiero Boniperti, vencer não é importante, mas é a única coisa que conta. O ídolo bianconeri – e meu também, não escondo a minha paixão pela Juventus – tem razão.
Alonso também venceu as 24 horas de Daytona, além de ser campeão do próprio campeonato mundial de Endurance 2018/19. Sua passagem numa categoria totalmente diferente da Fórmula 1 foi exitosa, o que mostra o talento e a capacidade incríveis do príncipe das Astúrias. Ele sabe guiar como ninguém.
Tenho lá minhas lembranças de infância quando Alonso chegou ao topo da F1 pela Renault, guiando aquele carro amarelo com o azul da Mild Seven. Os anos na Ferrari não resultaram em títulos, mas foram recheados de performances espetaculares que provaram de forma inequívoca a qualidade do espanhol.
E ele repetiu o sucesso em Le Mans. Pode-se dizer que a glória numa das corridas mais esperadas do ano foi só mais uma vitória no currículo invejável de Alonso. Assim pensa quem não enxerga nada além da F1. Le Mans é um triunfo incomparável e fica na história. Azar de quem não a reconhece como tal.

Foto: Reprodução – GE/ José Mário Dias
