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Automobilismo

Com licença, trago “poesia do asfalto”

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Victória bateu em minha porta.

E notadamente, a gente toma um susto como uma batida policial.

Afinal de contas, o pedido da delegada soa como mandado judicial. Dos bons, amigáveis e sorridentes, claro.

“Te convido a escrever para nós”. Não é convite, soa como convocação ao serviço da escrita.

Sabem, tenho 36 outonos. Velocidade em quatro rodas e carrinhos coloridos existe pra mim desde as memórias vívidas que tenho de “boina em modelo die-cast”, quando meu pai me colocou a frente da TV para ver Ayrton Senna na primeira volta mais fantástica da F1.

Tem quem ria e duvide que eu tenha lembrança disso visto numa velha TV Philco-Ford num domingo de manhã de tempo feio por aqui em casa. Mas deixai os incrédulos pra lá. Não importa o dedo apontado dos outros para mim.

Senna e Prost, fim da primeira volta em Donington, 1993 (Francois Flamand / DPPI)

E vou ser franco com vocês: não sou entendedor, não acompanho com afinco e detalhismo, deixo-me relaxar as vezes e, por vezes, é a Victória e nossos amigos a volta que me surpreendem com as últimas do motorsport.

Admiro todos eles. Fã confesso e bato palmas na primeira fila pelo primor de trabalho que executam (e que muitos invejam dentro do Otis, coitados!).

E assim sendo, o que o “boina” pode oferecer para eles dentro da arte que ele mais gosta sem ser o rádio e a narração das histórias velozes do A Mil Por Hora? Estou no meio de “cobras e cobrões”, como dizia a crônica do futebol.

Então apelo para aquilo que, nas molduras formadas pelos acontecimentos e momentos velozes, ainda é possível de ver como belos aos olhos dos sensíveis: a poesia, a pura poesia do asfalto, diria.

Alias, este termo “poesia do asfalto” saiu sem querer numa destas noites de voltas por Sampa afora dentro do brioso Asterix: o Sandero RS X-Tudo do Milton Rubinho, meu bom irmão e confrade de panquecas, que emula Jean Ragnotti vez em quando e me fez pensar nisso até hoje.

Milto Rubinho, este escriba e o Asterix: assim surgiu a “poesia do asfalto” (Arquivo Pessoal)

A velocidade não se resume apenas a técnica, aos números e gráficos telemétricos. Nem tampouco acaba nas canetadas dos cartolas e empresários do setor ou é escrita nos riscos de asfalto dos pilotos, que desenham verônicas na capa preta de mil pistas driblando o adversário, a deficiência técnica e, por que não dizer, a morte.

Poesia do asfalto é transformar a história numa crônica a lá Nelson Rodrigues ou Roberto Porto, especialistas do passado em romancear lances e mariolas do futebol que encantam os olhos dos saudosos e pesquisadores históricos, encontrando beleza nas linhas que descrevem fatos, personas, memórias.

O automobilismo também tem poesia e eu posso (e quero) provar isso ao leitor do VQTTV. Da mesma forma que mexe com a adrenalina, ela também mexe com a sensibilidade quando a história vira crônica e nos faz ver as cenas com outro olhar na mente pós-leitura.

WM P88, recordista de velocidade em Le Mans (Reprodução)

É como contemplar o silêncio solene no autódromo vazio e ainda ouvir roncos de motor rondando o crânio.

É como enxergar a própria mente além do fato histórico: do pódio, da vitória, da tragédia, da derrota.

É como entrar no psiqué do piloto, do construtor que vai romper o recorde na Mulsanne mesmo que isso estoure carro, mãos e mentes.

É colocar poesia no tanque e assistir ela ser escrita pelos pilotos do dia que, como dizia Celso Freitas, “esperamos que arranquem e nos tragam alguma alegria”.

Assim, espero ter feito a delegada sair da sala feliz.

Agora é comigo, com vocês e com a velocidade lá fora.

Que se faça a “poesia do asfalto”.

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