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Fórmula 1

A Ferrari é a maior inimiga dela própria

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O GP do Reino Unido continua dando o que falar. Foi uma das melhores corridas desta temporada por inúmeros fatores. Carlos Sainz venceu no templo sagrado de Silverstone e conquistou o seu primeiro triunfo na Fórmula 1. As disputas acirradas por posição também marcaram a prova, principalmente a briga pelo segundo lugar entre Charles Leclerc, Lewis Hamilton e Sergio Pérez – o agraciado da ocasião.

Mas outro fato chamou atenção do público: a trapalhada da Ferrari que custou a vitória de Leclerc. Quando a Alpine de Esteban Ocon quebrou e provocou a entrada do Safety Car, o monegasco era líder da prova com relativa tranquilidade. Com algumas voltas para o final, bastava aproveitar a oportunidade para uma troca de pneus e o triunfo viria tranquilamente.

Viria, porque a Ferrari não parece disposta a facilitar as coisas para o seu melhor piloto. Leclerc tinha um jogo de pneus duros insuficiente para segurar a pressão dos adversários caso eles aproveitassem o SC e colocassem o composto macio. Sainz, Hamilton e Perez fizeram precisamente isso. Resultado: terminaram na frente do monegasco, que viu uma vitória fácil escapar entre os dedos pela incompetência recorrente da sua equipe.

Para os amantes da F1, nenhuma surpresa. Em inúmeras ocasiões, a Ferrari cometeu erros crassos que custaram títulos e deixaram seus pilotos na mão. Quem não conhece aquela patacoada no pit stop de Eddie Irvine que alijou o bad boy de Maranello na disputa com Mika Hakkinen em 1999? Ou os incontáveis papelões a custarem o título de 2008 de Felipe Massa? O tifosi deve lembrar de outros episódios nada felizes, mas em suma é isto: a Ferrari consegue ser a maior inimiga dela própria.

Como se já não bastasse o balde de água fria pela situação envolvendo Charles Leclerc, surgiu a informação que parte da equipe se recusou a ir ao pódio e posar para foto com o vencedor Carlos Sainz. Sim, a frustração é compreensível pelo campeonato. Mas o espanhol é tão ferrarista quanto o monegasco. Quem conhece a história da F1 sabe da loucura e a paixão despertadas pela Ferrari em milhões de fãs. Vá a qualquer autódromo e veja quem é a maior torcida. Os mecânicos e engenheiros que tomaram tal atitude – ou melhor, deixaram de tomar – não desrespeitaram apenas Sainz. Eles conseguiram levar o nome da escuderia nesse balaio da vergonha.

Sabemos como é o mundo da F1. As linhas do parágrafo anterior contam com a veracidade da informação divulgada. Já vimos muitas coisas nos portais especializados que não passavam de conversa para boi dormir. Mas é F1, pessoal – com o agravo de ter a Ferrari no meio. Eu mesmo não duvido de nada.

Uma nota envolvendo Leclerc: aquela imagem de Mattia Binotto conversando com o seu piloto com o dedo indicador apontado para ele diz tudo. Vi muita gente querendo colocar panos quentes na história – o próprio Binotto foi um deles. Mas uma imagem vale mais que mil palavras. Se o chefe da equipe queria mesmo parabenizar o monegasco, qual a necessidade daquele dedo em tom professoral?

O temperamento de Leclerc é coisa bem conhecida. A primeira grande amostra foi no GP de Singapura de 2019, quando ele se sentiu prejudicado pela Ferrari ao parar depois do companheiro Sebastian Vettel. O tetracampeão venceu a corrida, em uma dobradinha ferrarista ofuscada pelo constrangimento da situação. Na atual temporada, Leclerc foi prejudicado pela equipe diversas vezes – desde estratégias equivocadas ou abandonos por problemas no motor. Não é nada difícil imaginar que ele tenha xingado meio mundo no rádio e Binotto tenha dado uma senhora bronca no seu indignado piloto.

Toda essa pantomima acontece em um momento do campeonato em que Max Verstappen mostra estar em ótima forma e guiando o um fantástico RB18. As duas coisas reunidas desaguam na vantagem confortável do atual campeão, que caminha para um título relativamente tranquilo. A Ferrari entregou um carro competitivo, tem um piloto fantástico como Charles Leclerc e reúne condições para brigar por uma conquista que não vem desde 2007.

Porém, a Ferrari precisa acordar. Já estamos praticamente na metade da temporada. A próxima corrida será na Áustria, com um circuito de poucas curvas e retas longas que favorecem bastante a Red Bull. Se acontecer alguma mudança mágica em Maranello e a equipe não for sua própria inimiga, teremos uma briga acirrada até o final. Mas duvido muito. A sorte de Leclerc parece estar traçada em 2022 – e certamente não é a desejada por ele.

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