Fórmula 1
Segunda Bandeirada #45: A Fórmula 1 de Eddie Jordan faz falta
Como vocês sabem, Eddie Jordan nos deixou no dia 20 deste mês. O último dos garagistas e ícone de uma Fórmula 1 que já não existe mais morreu aos 76 anos. E como vocês também sabem, não tenho o costume de escrever com regularidade por aqui, afinal, o Vai Que Tô Te Vendo não preza pela rapidez e sim pela qualidade do conteúdo produzido. Damos tempo ao tempo.
É interessante falar de Eddie mais de uma semana depois da sua partida. Ele é daqueles que ninguém odeia – tem que ser muito amargo para não gostar de um sujeito boa praça como ele. Quando penso nele, mentalizo uma F1 de tempos que não voltam mais, e embora eu não tenha vivido essa realidade, não me sinto impossibilitado de dizer que ela faz falta. E como faz.
Eddie começou sua trajetória na F1 em 1991, com a Jordan equipada com motor Ford HB-V8 e o icônico patrocínio da marca de refrigerantes 7Up. Antes disso, ele tinha uma equipe na Fórmula 3 inglesa e na F-3000. Com o Jordan 191, a equipe foi responsável pela estreia do maior piloto de todos os tempos: Michael Schumacher. Antes piloto Mercedes no DTM, o alemão obteve a oportunidade de guiar um dos carros de Eddie após a vaga ficar disponível com o infortúnio do titular Bertrand Gachot – prisão após uma briga de bar. Schumacher colocou o capacete, entrou no carro e fez uma ótima classificação em Spa-Francorchamps, sendo contratado pela Benetton logo depois – o resto é história.
A Jordan era a casa dos novatos da categoria. Foi nela que Rubens Barrichello começou a sua trajetória na F1, em 1993. Correu por lá durante quatro temporadas, alcançando como ponto máximo um segundo lugar no Grande Prêmio do Canadá de 1995. Aquele jovem de feições tímidas no carro equipado pelo motor Peugeot era o namoradinho do Brasil, esperança e promessa de muitas glórias tupiniquins na categoria – no fundo, as conquistas são méritos puramente pessoais e destinadas ao CPF de quem faz acontecer, mas vá lá. Bem diferente do Barrichello da Ferrari, tratado como sinônimo de fracasso e ruindade pela crítica tida como especializada, inverdades tidas como fatos cristalinos que o fizeram andar carrancudo por anos. Um contraste brutal.
E como não falar da temporada de 1999? A Jordan nunca foi uma equipe destinada a ser campeã, mas sonhou com a glória máxima naquela temporada com o alemão Heinz-Harald Frentzen. O título ficou com Mika Hakkinen e sua poderosa McLaren, com Eddie Irvine ficando com o vice em sua despedida da Ferrari – Schumacher não teve chance por quebrar a perna em Silverstone. Pilotos das duas maiores equipes da história da F1, e lá estava a intrusa Jordan incomodando as gigantes. Frentzen venceu duas corridas – França e Itália – e sonhou com o campeonato até os instantes finais, ajudando o seu time a ficar na terceira colocação no mundial de construtores. Nada mal para uma escuderia comandada por um garagista.
A bonança durou pouco tempo e a Jordan deixou a F1 em 2005. A categoria ficou cara demais e a gastança de então em níveis estratosféricos era incompatível com as possibilidades de Eddie. Aliás, vale a recordação: no vergonhoso GP dos Estados Unidos daquele ano e o papelão protagonizado pela guerra de pneus, Tiago Monteiro subiu ao pódio numa corrida com apenas seis carros. Em meio ao vexame, lá estava a alegria proporcionada pelo carro amarelo da irreverente equipe capitaneada pelo simpático irlandês. Uma cena que simbolizou a passagem da Jordan: alegria em meio a uma categoria historicamente sisuda e fechada.
Tanto se fala que a F1 está chata, que com seus motores híbridos, suas regras estúpidas e sem as grids girls a magia ficou para trás. Não sou moralista e longe de mim estar em posição para julgar o que é certo ou errado, busco sempre fugir da chorumela politicamente correta dos que tudo sabem. A categoria – e tudo o que a envolve – melhorou em muita coisa, fato. Mas também piorou e caminha para alguns rumos tenebrosos, a começar por quem a comanda.
Ao falar dos motores V10, Eddie sentenciou: a Fórmula 1 era sexo sobre rodas. A vibração, o frio na barriga e a energia do barulho das máquinas de outrora eram coisas inexplicáveis. Em outras épocas, eu não precisaria especificar que estava falando de motores, pois, nos dias atuais, tudo incomoda. No seu tempo, a alegria era melhor aceita. Você faz e fará muita falta, caro Eddie.
