Entre em contato conosco

Fórmula 1

Segunda Bandeirada #32: A arte da impetuosidade

Publicado:

em

Foto: McLaren

A Fórmula 1 já apresentou ao mundo uma infinidade de pilotos com seus respectivos estilos peculiares. O artigo não é um tratado de psicologia ou um estudo de sociologia, longe disso – ambos estão além da minha capacidade, sou apenas um jornalista que ama o automobilismo e escreve sobre carros andando em círculos. Porém, um fato inconteste: alguns chamam a atenção justamente pela frieza num meio predatório e nada empático. Oscar Piastri é um deles.

O australiano da McLaren é um jovem introspectivo, nada espalhafatoso e pouco afeito a demonstrações efusivas do que quer que seja. Nem mesmo quando venceu pela primeira vez, no Grande Prêmio da Hungria, desmanchou-se em felicidade incontida – Rubens Barrichello, por exemplo, foi às lágrimas no seu primeiro triunfo na F1, aquela inesquecível corrida em Hockenheim. No extremo oposto, o comportamento padrão se repete: ele nunca faz chilique quando é contrariado. É o jeito particular dele.

Por isso mesmo, não se esperava um foguetório verbal de Piastri ao vencer o GP do Azerbaijão. Ainda que fosse a segunda vitória na categoria e a primeira sem ordem de equipe – o papelão da McLaren na Hungria foi vergonhoso para todos os envolvidos –, nada de anormal. Seria ele um nice guy, aquele sujeito que aceita tudo sem contestar e nunca toma decisões arrojadas?

A resposta é um óbvio não. E a própria corrida mostra isso: Piastri venceu também pela frieza ao defender a posição de honra dos ataques de Charles Leclerc, mas decisivamente pela manobra na volta 20. Uma ultrapassagem na primeira curva absolutamente arrojada, destemida e com o grau de precisão típico dos grandes pilotos. Pegou o adversário de surpresa, que nada pode fazer. Era isso ou estar condenado a comer poeira do monegasco da Ferrari por mais trinta voltas – o que definitivamente não foi o caso.

Ele já demonstrou ser osso duro de roer em outras disputas com outros pilotos. O que se pode concluir é que Piastri não é muito de falar e sim de fazer. Nada de verborragia ou fanfarronice, mas arrojo e destemor de sobra dentro das pistas. Ele tem o melhor carro, mas ficaria ad infinitum atrás de Leclerc sem ter a coragem de tentar uma ultrapassagem arriscada. Não esperem dele os jogos mentais de Hamilton, a postura vulcânica de Verstappen ou a irreverência desmedida de Norris. Piastri faz o que tem de fazer sem grandes efusividades.

Já que citei Norris, falo da corrida dele. Conseguiu sair de P16 para chegar em quarto, descontou alguns pontos para Verstappen, fez uma prova digna. Mas até quando ele manda bem as contestações aparecem, nada é convincente. Tal quadro foi observado já no treino classificatório, quando ele tirou o pé no terceiro setor e desistiu da sua última tentativa no Q1, largando muito atrás. Tinha uma bandeira amarela e Norris quase escapou numa curva, mas havia totais condições de finalizar a volta. Já o defendi muito, mas com tal postura o título mundial continuará um sonho distante.

O final de semana foi mais um pesadelo para Verstappen, que não consegue performar bem de maneira alguma. A cada corrida, sua equipe anda para trás e parece totalmente perdida. Quando Norris colocou pneus médios novos, havia uma diferença enorme entre ambos e a inversão nas posições era praticamente impossível. Pois o britânico da McLaren conseguiu ultrapassar o arquirrival sem muita dificuldade: botou o carro de lado e passou na grande reta como um foguete. Tenho certeza que Verstappen está louco para terminar logo a temporada e conquistar o tetracampeonato, pois o prognóstico até o final do ano não é nada animador.

A corrida em Baku marcou uma mudança no campeonato de construtores: a McLaren assumiu a dianteira e ultrapassou a Red Bull – 476 a 456. O time papaia não ocupava a posição de honra desde 2014, quando Kevin Magnussen e Jenson Button terminaram o GP do Bahrein daquele ano em segundo e terceiro, respectivamente. Num intervalo de uma década, a McLaren comeu o pão que o Diabo amassou, amargou o fundo do grid e não parecia voltar aos dias de glória tão cedo. Mas ressurgiu das cinzas e tem o melhor carro da F1 novamente. Muitas pessoas foram importantes para tal, com destaque para o saudoso Gil de Ferran, que faleceu no final do ano passado.

E a McLaren está aí, firme e forte para voltar ao topo da categoria. Aos poucos, Piastri vai demonstrando capacidade para liderar essa escuderia tão tradicional.

Compartilhe esta publicação
Clique para Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.