Automobilismo
Fusca: gerações
Gerações…
O velho e o novo.
O pioneiro, o continuador.
O ontem e o hoje (que não segue esse futuro elétrico tão estranho).
Rodar pelos grandes centros ou, até mesmo, as cidades interioranas e encontrar um combalido sedan alemão tem sido a famosa “agulha no palheiro”.
Restam poucos em boas condições, renovados quase como “sleepers” ou demonstrando, na lata e na mecânica, os sinais do tempo.
As avenidas, outrora coloridas e recheadas por estas formas arredondadas reconhecíveis ao olho nu, estão cada vez mais prata, branco e preto.
E o tempo se vai tão distante que assusta o saudoso, que entende bem a frase que a filial da montadora alemã instalada no ABC paulista deixou escrita num anuncio de jornal em meados de agosto de 1986: “As vezes, o avanço tecnológico de uma empresa não está no que ela faz, mas no que deixa de fazer”.

Vão-se quatro décadas atrás desde que o Fusca foi retirado da linha de montagem da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP).
Esta, a despedida “de verdade”, já que a de 30 anos atrás foi mais uma saída protocolar dada uma volta espevitada e movida pelo “amor” de um presidente (da namorada dele, melhor dizendo), que dá história pra outro dia.
E aqui, não cabem os detalhes de história e evolução da nossa indústria automobilística dita defasada no seu tempo. O papo é mais sentimental. Trata-se da figura quase humana de um Fusca. O observar de um automóvel e ver nele um ser com algum sentimento, uma feição humana embarcada.
Rememorar o Fusca vai além do personagem que se transformara ao longo dos anos, bem além dos números de produção estabelecidos nos vários recôncavos em que esteve.
As curvas, mesmo desenhadas sob a benção de um regime assassino e insano, foram, com o tempo, perdoadas pelo carisma e inocência de um crime cometido pelos que o assinaram a ordem de nascer.
O tipico filho de uma família condenável pelas práticas que julgavam ser “da moral e bons costumes” e que foge de casa para viver o que acredita.

Mas enfim, ali está o carro que, apesar da fala e jeito alemão, falava todas as línguas que lhe colocassem a falar. Fusca, Beetle, Carocha, Vocho, quais fosse.
Figura que transcendia decisões industriais e mercadológicas para ser Pop e contrariar lógicas, como a de ser um sucesso numa terra que prezava seu “american way of life“.
Lá, virou arte e cinema, ostentando o dorsal #53 e logrando exito nas pistas mais desafiadoras da sétima arte.
Musica, filme, arte, cultura, estilo, simbolo de uma época.

O primeiro veículo de jovens, casais novatos, famílias, empresas e da mão desenhista e imaginativa das crianças.
O Fusca viveu o tempo em que um carro era, além da conquista, parte da família como um membro qualquer.
Tratado como tal, em alguns momentos e responsável por transcender o tempo em alguns casos.
O parceiro de aventuras que aparecia nas fotos como um convidado querido e que rasgava suspiros preocupados quando ia à oficina com uma vela queimada, uma bobina fervendo ou o carburador fora do tom.
Ah, nada como um arame qualquer, um parafuso ou um martelinho esperto. O desenvolvedor nato das gambiarras que aparecem no “manual prático de socorro” de qualquer ser com dom de Prof. Pardal.


O Fusca era, e ainda é, a definição de “menos computador, e mais braço”.
O momento da engenharia que permitia que as mãos e o toque fossem o comando necessário para se fazer a luz.
E havia quem aprimorasse, na mão e no ouvido e com uma dose inigualável de inteligencia e esperteza, o seu desempenho para além do adormecido 65 CV do 1.6 abaixo do capô traseiro.
Nas pistas, virou o “penico atômico” do saudoso automobilismo nacional, veloz e engenhoso diante das limitações.
Não a toa, a família mais marcante da velocidade tupiniquim o transformou num protótipo nascido desta mesma engenhosidade que supera limitações com calculo e um pouco de malícia.

Assim, como a roda evolutiva atinge a tudo em volta, atingiu também ao sedan alemão, pego no contrapé daquelas certezas ridículas e sem cor da roda da evolução.
O desenho ultrapassou-se. A mecânica fiável, de um desenho pro outro ficou frágil e fraca e a novidade atendeu outros rabiscos e pensamentos tecnológicos.
Ganhou-se mais “touchs”, perdeu-se o carisma.
E nenhum se equipara ao do sorriso metálico do Fusquinha amigo.
Naquele tempo, a despedida mereceu um minuto de silêncio em São Bernardo. Parecendo previsão do silêncio que se vive com esses engenhos elétricos despersonalizados de identificação sonora.
A sinfonia coordenada pelo acelerador que invadia o habitáculo, vista como defeito, mas sentida como identidade, atitude, velocidade ao seu estilo.
O relógio de hoje corre até mais rápido que o Fusca, mas o Fusca é o highlander que vai insistir em não morrer, para tristeza do detrator, para alegria dos saudosos, amantes e poetas que o fazem arte até hoje.
E eu, fiel a Wolfsburg/São Bernardo, quando encontro com um neste estado de um “velhinho de guerra asseado”, não contenho o sorriso.
Toda a recordação corre e aparece no contemplar das curvas e retas, no desfile, nessa insistência de ser presença.
E cá sentado dando voltas no volante do meu VW mais jovem, penso cá comigo…
“Estamos continuando algo, de alguma forma”.
