Fórmula 1
30 anos sem Ayrton Senna parte #3: O dia que o mundo parou – e o Brasil chorou
Bem, estamos em mais um primeiro de maio. Eu sou um jovem, tenho 25 anos e não vivi o mais doloroso deles como meus pais, tios, avós e conhecidos viveram. A morte de Ayrton Senna foi um acontecimento que não ficou restrito à Fórmula 1 como outras fatalidades – a de Jules Bianchi, por exemplo, é lembrada apenas pelos fãs desse esporte, sendo a única que presenciei. Foi uma tragédia a transcender os limites de pista e dos circuitos, indo parar na memória de todos.
O roteiro da temporada de 1994 é conhecido: Senna deixou a McLaren e assinou com a Williams, a melhor equipe da época. Foi para ser campeão após a saída do rival Alain Prost e tinha a expectativa de ter o melhor carro do grid, mas foi frustrado pelas instabilidades do seu FW16 e a ascensão meteórica da Benetton de Michael Schumacher. O alemão venceu as duas primeiras corridas da temporada, enquanto o brasileiro abandonou em ambas. O Grande Prêmio de San Marino contava com ares de decisão para um campeonato ainda no início.
Não é o propósito do texto, mas me sinto na obrigação de desmentir algumas inverdades acerca dos acontecimentos daquela temporada. São eles: (I) a Benetton trapaceava, (II) Schumacher sabia e por isso tem culpa no cartório pela morte de Senna e (III) a Williams é responsável pela tragédia. Vamos lá. A Benetton foi investigada de cabo a rabo pela FIA e nada foi provado. O controle de tração utilizado pela equipe italiana era mecânico, e o regulamento proibia o eletrônico, sendo explorada a famosa área cinzenta do regulamento pela escuderia – outras tantas já fizeram o mesmo. Se o seu time estava nos conformes, como Schumacher pode ser responsabilizado pela morte do brasileiro? Por último, a Williams errou a mão no carro, mas corrigiu e entregou uma máquina decente para Damon Hill lutar até o fim pelo título. Senna não teve como aproveitar disso por ter morrido antes, mas foi uma fatalidade, meu caro Watson. Isso é corrida de carro e essas coisas acontecem, infelizmente.
Uma fatalidade com causa determinante até hoje desconhecida. Fala-se em hipóteses mais prováveis, mas nada de 100% certo. Nunca teremos essa certeza. Apenas o próprio Ayrton sabe o que de fato deu errado para ele não conseguir virar o volante, fazer o carro seguir o apex da Tamburello e a tragédia não acontecer. Porém, ele não está mais entre nós.
Da estúpida batida até a confirmação da morte, uma angústia sem tamanho. O mundo da F1 não dava a mínima para a continuação da prova que nem deveria ter sido realizada, a vitória de Schumacher ou o pódio sem champagne. Todos queriam saber como Senna estava. O Brasil então… Era um domingo que, como tantos outros, as pessoas estavam reunidas para assistir o ídolo dar show nas pistas e sair com a vitória. Conversando com meus pais e pessoas próximas que viveram aquele dia, tive uma noção do tamanho da tristeza. Muitos rezavam, outros choravam, enfim, era uma epopeia sem final feliz.
Tive a curiosidade de rever a cobertura da imprensa brasileira acerca do velório e do enterro. Chorei pela milionésima vez. Pessoas comuns, como eu, choravam a morte de alguém que só se via pela televisão e passava grande parte da sua vida na Europa. Ainda assim, era um ídolo brasileiro com total merecimento. Senna nunca utilizou a sua imagem para fins oportunistas ou algo do tipo. O ritual de pegar a bandeira do Brasil após as vitórias e carregá-la com orgulho era espontâneo, fiel e verdadeiro. Por isso, sua morte foi chorada, lamentada e jamais esquecida por uma nação que o fez seu maior orgulho.
Trinta anos é um período considerável de tempo. Muita coisa acontece, o mundo muda e revoluções – ou mesmo contrarrevoluções – políticas vão parar nos livros de História. É absolutamente significativo que a memória nacional recorde de Ayrton Senna depois de três décadas como se ele tivesse partido ontem. E mais significativo ainda que pessoas como este humilde colunista tenham um grande carinho pelo ídolo das pistas. Muito se falou de Senna. Adicionar mais linhas acerca desta biografia singular é um desafio e tanto. Porém, tenho a convicção de cumprir com dignidade o meu papel, bem como a certeza de não falar dele pela última vez.
Ayrton Senna é eterno.

Foto: italianismo.com.br/ Esporte News
